{"id":2876,"date":"2021-02-13T15:28:18","date_gmt":"2021-02-13T18:28:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/?p=2876"},"modified":"2021-03-12T12:06:36","modified_gmt":"2021-03-12T15:06:36","slug":"informatica-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/index.php\/informatica-sociedade\/","title":{"rendered":"Inform\u00e1tica \u00e9 Sociedade"},"content":{"rendered":"<p>(<a href=\"#Cafezeiro\">Isabel Cafezeiro<\/a>, <a href=\"#IvanMarques\">Ivan da Costa Marques<\/a>, <a href=\"#Severo\">Fernando Severo<\/a>, <a href=\"#Cukierman\">Henrique Cukierman<\/a>)<\/p>\n<p><!-- IMAGEM DISPARADORA --><\/p>\n<section id=\"imagemDisparadora\">\n<!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escher.jpg\" alt=\"Escher - m\u00e3os se auto-desenhando\" width=\"493\" height=\"409\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2878\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escher.jpg 493w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escher-300x249.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 493px) 100vw, 493px\" \/><br \/>\nM\u00e3os que (se) desenham<figcaption>Fonte: M.C. Escher\u2019s \u201cDrawing Hands\u201d \u00a9 2021 The M.C. Escher Company &#8211; the Netherlands. All rights reserved. Used by permission. <a href=\"http:\/\/www.mcescher.com\">www.mcescher.com<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- QUEST\u00c3O DE ABERTURA --><\/p>\n<h4>\u00c9 a inform\u00e1tica que \u201cdesenha\u201d a sociedade ou \u00e9 a sociedade que \u201cdesenha\u201d a inform\u00e1tica?<\/h4>\n<p><!-- TEXTO INTRODUT\u00d3RIO --><br \/>\nTi\u00e3o Rocha, um dos maiores educadores brasileiros na atualidade, cunhou o termo <em><strong>n\u00e3o-objetivos da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em>. Ele redigiu um documento, similar a um manifesto, onde enumerou aquilo que <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> deveria acontecer em qualquer escola (<a href=\"#SEVERO2016\">SEVERO, 2016<\/a>,p.19-20):<br \/>\ni) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> trate uma crian\u00e7a como um livro em branco onde devemos escrever uma bela hist\u00f3ria. Mesmo uma crian\u00e7a de 7 anos de idade tem um passado, tem conhecimentos para trocar e dialogar, pois afinal ela tem no m\u00ednimo 7 anos de praia;<br \/>\nii) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> ensine que os conhecimentos escolares\/acad\u00eamicos s\u00e3o os \u00fanicos e verdadeiros ou superiores aos outros conhecimentos;<br \/>\niii) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> trate uma crian\u00e7a como um adulto que n\u00e3o cresceu, as rela\u00e7\u00f5es de direitos e deveres entre crian\u00e7as e adultos s\u00e3o diferentes;<br \/>\niv) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> avalie a aprendizagem somente com testes e provas, existem maneiras diferentes de mensurar a aprendizagem, como, por exemplo, com uma boa conversa;<br \/>\nv) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> ensine memoriza\u00e7\u00e3o de conte\u00fados, pratique o aprender fazendo;<br \/>\nvi) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> ensine atrav\u00e9s de tarefas repetitivas, estimule a reflex\u00e3o e o di\u00e1logo;<br \/>\nvii) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> trate as crian\u00e7as de forma padr\u00e3o, cada uma tem um tempo e jeito particular de aprender e de expressar seu aprendizado;<br \/>\nviii) <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> fale demais, as crian\u00e7as precisam ser escutadas, elas t\u00eam necessidade de se expressar tamb\u00e9m;<br \/>\nenfim, <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> pensar na escola em um lugar onde se entra e <strong><em>n\u00e3o<\/em><\/strong> se aprende. <\/p>\n<p>Vamos, neste cap\u00edtulo, seguir o tom da provoca\u00e7\u00e3o do Ti\u00e3o Rocha para abordar o tema \u201cInform\u00e1tica \u00e9 Sociedade\u201d.<br \/>\nRecusamos as no\u00e7\u00f5es de neutralidade e universalidade da Inform\u00e1tica, onde neutralidade significa que o que est\u00e1 em quest\u00e3o (no caso, a inform\u00e1tica) n\u00e3o carrega em si nenhum tra\u00e7o do local e tempo onde foi concebido. Universalidade significa que o que est\u00e1 em quest\u00e3o vale (ou age da mesma forma, ou exerce o mesmo papel) em qualquer que seja o lugar ou tempo. Dispensar essas no\u00e7\u00f5es permite perceber a inform\u00e1tica entrela\u00e7ada, enredada com a Sociedade. Esses enredamentos oferecem possibilidades de contribui\u00e7\u00f5es efetivas \u00e0 compreens\u00e3o das configura\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, o que \u00e9 o ponto de partida para o enfrentamento dos desafios que a inform\u00e1tica pretende superar, seja no campo da educa\u00e7\u00e3o, seja na sociedade em geral.<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>Espa\u00e7os da Educa\u00e7\u00e3o, por Ti\u00e3o Rocha<\/h5>\n<p><!-- V\u00cdDEO --><br \/>\nTi\u00e3o Rocha, Fundador do <a href=\"http:\/\/www.cpcd.org.br\/\">Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento<\/a>, apresentou os <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em>-objetivos da educa\u00e7\u00e3o na palestra que fez parte do Curso para Educadores da 31\u00aa Bienal de S\u00e3o Paulo, em 2014.  <\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"#31bienal (A\u00e7\u00f5es educativas) Curso para Educadores: Ti\u00e3o Rocha\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VrgQZ4zMW0k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nCurso para Educadores: Ti\u00e3o Rocha<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VrgQZ4zMW0k\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VrgQZ4zMW0k<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<\/section>\n<\/section>\n<p><!-- OBJETIVOS EDUCACIONAIS --><\/p>\n<section id=\"objetivosEducacionais\">\n<h4>N\u00e3o-objetivos Educacionais:<\/h4>\n<ul>\n<li>Reconhecer que a inform\u00e1tica <strong>n\u00e3o<\/strong> \u00e9 neutra, assim como qualquer tecnologia;<\/li>\n<li>Reconhecer que a inform\u00e1tica <strong>n\u00e3o<\/strong> \u00e9 universal, assim como qualquer tecnologia;<\/li>\n<li>Mostrar que as no\u00e7\u00f5es de impactos da inform\u00e1tica sobre a sociedade (e vice-versa) n\u00e3o contribuem para o enfrentamento dos desafios que a inform\u00e1tica pretende superar, seja no campo da educa\u00e7\u00e3o, seja na sociedade em geral.<\/li>\n<\/ul>\n<h4>\u00cdndice:<\/h4>\n<ul>\n<li><a href=\"#s1\">1. O desnudamento dos mundos e o inevit\u00e1vel embaralhamento de categorias: t\u00e9cnico, social, pol\u00edtico e pr\u00e1ticas educativas<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s2\">2. Onde se encontra a linha divis\u00f3ria que separa a m\u00e1quina e o humano (o t\u00e9cnico e o social)?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s3\">3. A materialidade dos artefatos, intangibilidade das ideias e corporeidade dos humanos&#8230; ou tudo junto e misturado?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s4\">4. Trabalho alienado &#8230; trabalho apropriado &#8230; trabalho?<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s5\">5. Machine learning racista<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s6\">6. Vidas, pensamentos, matem\u00e1ticas e m\u00e1quinas: a constru\u00e7\u00e3o do computador<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#s7\">7. Conclus\u00e3o<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#resumo\">Resumo<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#leituras\">Leituras Recomendadas<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#exercicios\">Exerc\u00edcios<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#notas\">Notas<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#referencias\">Refer\u00eancias<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#Autoria\">Sobre os autores<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#citar\">Como citar este cap\u00edtulo<\/a><\/li>\n<li><a href=\"#comentarios\">Coment\u00e1rios<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 1 --><\/p>\n<h2 id=\"s1\">1. O desnudamento dos mundos e o inevit\u00e1vel embaralhamento de categorias:  t\u00e9cnico, social, pol\u00edtico e pr\u00e1ticas educativas<\/h2>\n<p><a href=\"http:\/\/www.acervo.paulofreire.org\/handle\/7891\/24\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-162x300.png\" alt=\"\" width=\"162\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3002\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-162x300.png 162w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-554x1024.png 554w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-768x1419.png 768w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-831x1536.png 831w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem-1108x2048.png 1108w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/maquinaAServicoDeQuem.png 1328w\" sizes=\"auto, (max-width: 162px) 100vw, 162px\" \/><\/a><\/p>\n<p class=\"blockquote\">Em primeiro lugar, fa\u00e7o quest\u00e3o enorme de ser um homem de meu tempo e n\u00e3o um homem exilado dele, o que vale dizer que n\u00e3o tenho nada contra as m\u00e1quinas. De um lado, elas resultam e de outro estimulam o desenvolvimento da ci\u00eancia e da tecnologia, que, por sua vez, s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es humanas. O avan\u00e7o da ci\u00eancia e da tecnologia n\u00e3o \u00e9 tarefa de dem\u00f4nios, mas sim a express\u00e3o da criatividade humana. Por isso mesmo, as recebo da melhor forma poss\u00edvel. Para mim, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9: a servi\u00e7o de quem as m\u00e1quinas e a tecnologia avan\u00e7ada est\u00e3o? Quero saber a favor de quem, ou contra quem as m\u00e1quinas est\u00e3o postas em uso &#8230; Uma pergunta pol\u00edtica, que envolve uma dire\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, tem de ser respondida politicamente. Para mim os computadores s\u00e3o um neg\u00f3cio extraordin\u00e1rio. O problema \u00e9 saber a servi\u00e7o de quem eles entram na escola. Ser\u00e1 que vai se continuar dizendo aos educandos que Pedro \u00c1lvares Cabral descobriu o Brasil? Que a revolu\u00e7\u00e3o de 64 salvou o pa\u00eds? Salvou de que, contra que, contra quem? Estas coisas \u00e9 que acho que s\u00e3o fundamentais. (<a href=\"#FREIRE1984\">FREIRE, 1984<\/a>)\n<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1980 marcou a entrada da antropologia nos laborat\u00f3rios quando a \u201ctribo\u201d dos cientistas passou a ser estudada a partir de suas pr\u00e1ticas cotidianas. De l\u00e1 para c\u00e1, foi ganhando espa\u00e7o uma compreens\u00e3o que privilegia o fazimento dos conhecimentos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos, ou seja, o estudo da ci\u00eancia em a\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o mais somente da ci\u00eancia j\u00e1 pronta), da ci\u00eancia enquanto \u00e9 feita, enquanto ainda n\u00e3o h\u00e1 certezas, mas apenas apostas. Observar cientistas em a\u00e7\u00e3o permitiu elaborar uma compreens\u00e3o dos fatos cient\u00edficos e artefatos tecnol\u00f3gicos como objetos, ou melhor, como entidades que se estabilizam em configura\u00e7\u00f5es de redes de elementos heterog\u00eaneos.<\/p>\n<p> <!-- QUADRO COMUM+CINECLUB --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>A entrada da antropologia nos laborat\u00f3rios<\/h5>\n<section class=\"cineclube_cartaz\"><a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Laboratorio-Bruno-Woolgar-Steve-Latour\/dp\/857316123X\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2119de15-c151-4136-a91b-a710c1fb0c04.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"606\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2895\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2119de15-c151-4136-a91b-a710c1fb0c04.jpg 400w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2119de15-c151-4136-a91b-a710c1fb0c04-198x300.jpg 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><br \/>\n    <\/section>\n<section class=\"cineclube_sinopse\">\n<p>Refer\u00eancias seminais dos chamados \u201cEstudos de Laborat\u00f3rio\u201d s\u00e3o <a href=\"#LATOUR1979\">Latour e Woolgar (1979\/1997)<\/a>, <a href=\"#KNORR-CETINA1981\">Knorr-Cetina (1981)<\/a>, <a href=\"#LYNCH1985\">Lynch (1985)<\/a>, <a href=\"#TRAWEEK1988\">Traweek (1988)<\/a> e <a href=\"#LATOUR1986\">Latour e Woolgar (1986)<\/a>. Esta \u00faltima refer\u00eancia foi republicada em 1986 retirando a palavra \u201csocial\u201d do t\u00edtulo. Na figura, a capa da edi\u00e7\u00e3o brasileira da primeira refer\u00eancia citada acima: <a href=\"#LATOUR1979\">A vida de laborat\u00f3rio: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos<\/a>.<\/p>\n<\/section>\n<\/section>\n<p>Compreender a atividade cient\u00edfica como um enredamento de objetos e sujeitos coloca em xeque as chamadas \u201can\u00e1lises de impacto social\u201d, para as quais a imbrica\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica-sociedade deveria ser estudada apenas a partir de uma cole\u00e7\u00e3o de \u201cimpactos da inform\u00e1tica na sociedade\u201d. Em tais an\u00e1lises, a inform\u00e1tica \u00e9 \u201ct\u00e9cnica\u201d e a sociedade \u00e9 \u201csocial\u201d. Segundo esses entendimentos, os computadores s\u00e3o objetos puros que saem dos laborat\u00f3rios e invadem o territ\u00f3rio da sociedade, atravessando-o como vag\u00f5es que podem ser esvaziados e\/ou carregados de conte\u00fados. \u00c9 not\u00e1vel que essa interpreta\u00e7\u00e3o do mundo a partir dos impactos da ci\u00eancia sobre a sociedade tamb\u00e9m tem seus efeitos na educa\u00e7\u00e3o. Quando se entende a inform\u00e1tica como uma ci\u00eancia ou atividade exclusivamente t\u00e9cnica e a educa\u00e7\u00e3o como uma ci\u00eancia ou atividade integralmente social, fica estabelecida uma demarca\u00e7\u00e3o que divide, por exemplo, algoritmos, linguagens, circuitos e ferragens de um lado, e pessoas e organiza\u00e7\u00f5es de outro. Ao tratarmos a inform\u00e1tica entrela\u00e7ada, ou melhor, enredada com a sociedade, estamos por efeito fazendo um movimento de concilia\u00e7\u00e3o entre a inform\u00e1tica e a educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel enxerg\u00e1-lo no caso em particular da educa\u00e7\u00e3o em inform\u00e1tica: se parte importante dela reside na habilidade em manipular abstra\u00e7\u00f5es formais, essa concilia\u00e7\u00e3o obriga a n\u00e3o tomar essas abstra\u00e7\u00f5es apartadas dos artefatos em opera\u00e7\u00e3o, seus comportamentos, ou sua inser\u00e7\u00e3o em um mundo feito de pessoas e atividades.<\/p>\n<p>Embora o movimento de entrada da antropologia nos laborat\u00f3rios tenha ocorrido na Europa e nos EUA, aqui no Brasil a d\u00e9cada de 1980 trazia questionamentos ressonantes. Ainda nos anos 1970, Paulo Freire publicava a sua \u201cPedagogia do Oprimido\u201d, resultado de reflex\u00f5es sobre propostas educativas para o Brasil que haviam sido interrompidas pelo golpe militar de 1964, e a efetiva\u00e7\u00e3o de algumas destas propostas no Chile, em tempos de ex\u00edlio. Nesta obra Paulo Freire descreve a educa\u00e7\u00e3o como um sistema banc\u00e1rio, onde os alunos recebem dep\u00f3sitos de conhecimentos, como vasilhas a serem enchidas pelo educador: \u201cquanto mais v\u00e1 \u2018enchendo\u2019 os recipientes com seus dep\u00f3sitos, tanto melhor o educador ser\u00e1. Quanto mais se deixem docilmente \u2018encher\u2019, tanto melhores educandos ser\u00e3o\u201d (<a href=\"#FREIRE1987\">FREIRE, 1987<\/a>, p. 33).<\/p>\n<p>Assim como os antrop\u00f3logos europeus, Paulo Freire percebeu e denunciou o inevit\u00e1vel imbricamento entre o sistema social e pol\u00edtico e as pr\u00e1ticas educativas. Da\u00ed, a impossibilidade de pensar uma proposta educativa eficaz que se fundamente sobre uma separa\u00e7\u00e3o entre dois mundos, o \u201cmundo da t\u00e9cnica\u201d (n\u00e3o somente no que diz respeito \u00e0s tecnologias da inform\u00e1tica, mas tamb\u00e9m aos conceitos estabilizados e abstratos que se apresentam no campo da pedagogia, por exemplo) e o \u201cmundo social\u201d. \u00c9 sobre essa separa\u00e7\u00e3o que reside a concep\u00e7\u00e3o de \u201cimpacto\u201d: de um lado a sociedade, de outro a t\u00e9cnica em uma percept\u00edvel diferen\u00e7a em favor da t\u00e9cnica: ela sobrep\u00f5e-se e exerce seus impactos sobre a (d\u00f3cil!) sociedade. Pois bem, n\u00e3o \u00e9 esse o entendimento que oferecemos neste cap\u00edtulo.<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM+CINECLUB --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>Capa da primeira edi\u00e7\u00e3o do livro Pedagogia do Oprimido<\/h5>\n<section class=\"cineclube_cartaz\"><a href=\"https:\/\/br.pinterest.com\/pin\/41306521554967349\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/bf31f5f54c90de99b1821bafa1e40274.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"816\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2898\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/bf31f5f54c90de99b1821bafa1e40274.jpg 500w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/bf31f5f54c90de99b1821bafa1e40274-184x300.jpg 184w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\nFonte: <a href=\"https:\/\/br.pinterest.com\/pin\/41306521554967349\/\">Pinterest<\/a><br \/>\n    <\/section>\n<section class=\"cineclube_sinopse\">\n      &#8220;Pedagogia do Oprimido\u201d, obra do pedagogo pernambucano Paulo Freire  (<a href=\"#FREIRE1987\">1987<\/a>), primeira edi\u00e7\u00e3o em 1968, \u00e9 a terceira mais citada em trabalhos da \u00e1rea de humanas, segundo um levantamento feito no <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/\">Google Scholar<\/a> &#8211; ferramenta de pesquisa dedicada \u00e0 literatura acad\u00eamica.<\/p>\n<p>O professor associado da London School of Economics (LSE), Elliott Green, analisou as obras mais citadas em trabalhos dispon\u00edveis na ferramenta, criada em 2004, que \u00e9 desde ent\u00e3o uma refer\u00eancia crescente para pesquisas, gra\u00e7as a sua acessibilidade.<br \/>\nSegundo ela, Freire \u00e9 citado 72.359 vezes, atr\u00e1s do fil\u00f3sofo americano Thomas Kuhn (81.311) e do soci\u00f3logo, tamb\u00e9m americano, Everett Rogers (72.780). Ele \u00e9 mais referido do que pensadores como Michel Foucault (60.700) e Karl Marx (40.237).<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/impactofsocialsciences\/2016\/05\/12\/what-are-the-most-cited-publications-in-the-social-sciences-according-to-google-scholar\/\">LSE Impact Blog<\/a><br \/>\n    <\/section>\n<\/section>\n<p>N\u00f3s partimos da percep\u00e7\u00e3o de que o mundo da vida, o mundo em que trabalhamos e gozamos, em que suamos, amamos e odiamos nem \u00e9 separ\u00e1vel do mundo em que pensamos, nem \u00e9 o mundo dos conceitos ou das chamadas abstra\u00e7\u00f5es. Mesmo se constrangidos a pensarmos conceitualmente em computadores e bancos de dados, e por extens\u00e3o em inform\u00e1tica, e em consumidores, cidad\u00e3os, eleitores e autoridades, e por extens\u00e3o em sociedade, certamente n\u00e3o temos como evitar a constata\u00e7\u00e3o que teclamos, clicamos, olhamos, tocamos e escrevemos em telas ou papel, e que nos juntamos encarnados em Fernando, Henrique, Isabel e Ivan para escrever este cap\u00edtulo \u2014 uma situa\u00e7\u00e3o muito diferente de considerar que aqui n\u00f3s ter\u00edamos saltado para um mundo de abstra\u00e7\u00f5es puras e apartado das nossas vidas. Esta percep\u00e7\u00e3o nos leva a compartilhar com voc\u00ea que nos l\u00ea vis\u00f5es n\u00e3o abstratas de inform\u00e1tica-sociedade. A inform\u00e1tica e a sociedade, al\u00e9m de formarem um \u201ctecido sem costura\u201d, s\u00e3o sempre concretas, materiais, encarnadas, isto \u00e9, localizadas e situadas, inextrincavelmente misturadas com o onde, o quando, o qu\u00ea e o quem. \u00c9 nesse sentido que nos afastamos da ideia de \u201cobjetos puros\u201d, ou de \u201cconceitos abstratos\u201d, que, sem a materialidade dos artefatos e a corporeidade dos humanos, acabam por esconder as condi\u00e7\u00f5es do lugar, do momento, do porqu\u00ea e do por quem foram concebidos. Pelos mesmos motivos, nos afastamos das abordagens ditas \u201cglobais\u201d (<a href=\"#TEIXEIRA2009\">TEIXEIRA; CUKIERMAN,2009<\/a>; <a href=\"#PRIMO2017\">PRIMO, 2017<\/a>), onde objetos e conceitos s\u00e3o apresentados como se n\u00e3o pertencessem a lugar nenhum ou, dito de outro modo, como se pudessem pertencer sem modifica\u00e7\u00f5es a qualquer lugar. Em vez disso, buscamos verificar que objetos e conceitos, quando adentram o mundo da vida, est\u00e3o sempre carregados de localidades, e da\u00ed a import\u00e2ncia de uma perspectiva historicamente situada da inform\u00e1tica-sociedade, um agora que abra\u00e7a <em>passado <\/em>e <em>futuro<\/em>, no qual se percebe o percurso de co-constru\u00e7\u00e3o de objetos\/conceitos e sociedades.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m verificamos que esses objetos ou conceitos \u2014 computadores, bancos de dados, linguagens de programa\u00e7\u00e3o, profiss\u00f5es, consumidores, trabalhadores, eleitores \u2014 sempre carregados de localidades, agem nas redes onde s\u00e3o postos em uso, provocando reconfigura\u00e7\u00f5es e rearranjos tanto em si pr\u00f3prios como tamb\u00e9m nas redes. Para compreender esse intrincado movimento, como sugeriu Paulo Freire, \u00e9 preciso estar sempre perguntando em cada lugar e cada momento \u201cem benef\u00edcio de quem ou de qu\u00ea?\u201d. Isto permite esclarecer os novos v\u00ednculos e compromissos que os objetos\/conceitos assumem na <a href=\"#canoaDoTempo\">canoa do tempo<\/a> (quadro a seguir).<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>Uma perspectiva historicamente situada<\/h5>\n<p>Com o cuidado de n\u00e3o fixar uma no\u00e7\u00e3o de igualdade geral como se \u201c\u00edndio\u201d significasse uma categoria homog\u00eanea, podemos recorrer \u00e0s compreens\u00f5es de mundo dos povos origin\u00e1rios do Brasil para elaborar a proposta de uma perspectiva historicamente situada, que vem a contribuir no nosso caso, para compreender a inform\u00e1tica-sociedade e suas pr\u00e1ticas educativas.<br \/>\nPelo fato de viverem em comunidade, e orientarem suas pr\u00e1ticas cotidianas pela coopera\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de coisas coletivas, muitas culturas ind\u00edgenas brasileiras formaram compreens\u00f5es de mundos diferentes daquela que vigora na cultura hegem\u00f4nica, esta \u00faltima, dirigida pela constru\u00e7\u00e3o de \u201csujeitos produtivos\u201d, aqueles que alimentam e fazem mover os mecanismos de consumo. Podemos observar uma distin\u00e7\u00e3o entre o conceito de tempo difundido pela cultura europeia (linear e irrevers\u00edvel) e a forma como v\u00e1rias etnias e aldeamentos ind\u00edgenas organizam o mesmo conceito, por ciclos e mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>A \u201ccanoa do tempo\u201d, que faz parte da tradi\u00e7\u00e3o oral e mem\u00f3ria dos Guaranis consiste em \u201cuma no\u00e7\u00e3o de sequ\u00eancia, um antes e um depois, mas isso n\u00e3o implica em uma sequ\u00eancia demarcada entre passado e futuro, que, em vez de separados pelo presente estariam dentro do agora. Um presente que se recria constantemente pela inclus\u00e3o de outras temporalidades, como demonstra a sabedoria do arco e flecha, que se lan\u00e7a ao futuro pelo recuo ao passado\u201d. Uma perspectiva historicamente situada pode ser pensada como o agora que abra\u00e7a passado e futuro. Passado porque nossas coisas e conceitos foram constru\u00eddos com\/na vida. Futuro porque as redes de relacionamentos v\u00e3o se estabelecendo na configura\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 por vir.  <\/p>\n<p>O video a seguir \u00e9 sobre a constru\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<figure>\n    <iframe loading=\"lazy\" title=\"Dja Guata Por\u00e3: Rio de Janeiro ind\u00edgena | Processo de constru\u00e7\u00e3o\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HJcxYBLiDUE?start=171&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nExposi\u00e7\u00e3o Dja Guata Por\u00e3 (traduzindo da l\u00edngua Guarani para o portugu\u00eas, Caminhar bem, caminhar juntos) Museu de Arte do Rio (MAR), 2017, que marcou a presen\u00e7a ind\u00edgena no Rio de Janeiro<figcaption>Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HJcxYBLiDUE&#038;t=171s<\/figcaption><\/figure>\n<\/section>\n<p>Vamos aqui ent\u00e3o abordar a Inform\u00e1tica a partir de um espa\u00e7o de mistura e enredamento das categorias que s\u00e3o usualmente adotadas em separado (o t\u00e9cnico x o social, o abstrato x o concreto, o local x o global, o passado x o presente x o futuro). Essas misturas n\u00e3o surpreendem quando tomamos a experi\u00eancia vivida (e n\u00e3o as categorias e classifica\u00e7\u00f5es j\u00e1 estabilizadas pelas disciplinas e \u00e1reas de conhecimento) como referencial de estudo. Paulo Freire diria: \u201c\u00e9 o desnudamento do mundo, a sua transforma\u00e7\u00e3o\u201d (<a href=\"#FREIRE1987\">FREIRE, 1987<\/a>), \u00e9 um processo que nos leva a perceber a necessidade de escapar da abordagem linear com que nos habituamos a compreender nossos objetos e conceitos para perceber recorr\u00eancias, retrocessos, intercorr\u00eancias e interfer\u00eancias de m\u00faltiplos caminhos. Entretanto, essas m\u00faltiplas possibilidades estar\u00e3o sempre distantes de uma conclus\u00e3o totalizadora, de uma explica\u00e7\u00e3o exaustiva e generalizante. E como figura o computador nessa abordagem? Desde muito antes da constru\u00e7\u00e3o do computador, os matem\u00e1ticos j\u00e1 sabiam da impossibilidade de construir uma m\u00e1quina generalizante, que desse conta da totalidade de problemas, ou seja, de uma m\u00e1quina que fosse de prop\u00f3sito geral no seu sentido amplo. Diante das evid\u00eancias de que n\u00e3o haveria esse dispositivo generalizante, a vida foi trilhando seus caminhos pela incompletude, mostrando outras e novas possibilidades que se materializaram nos sistemas que hoje fazem parte do nosso dia a dia. Portanto, assim como qualquer outra tecnologia (quadro negro e giz, arco e flecha, telefones celulares), o computador acompanha vidas, pensamentos, matem\u00e1ticas e m\u00e1quina (ver <a href=\"#s6\">se\u00e7\u00e3o 6<\/a>).<\/p>\n<p>Ao rejeitar a tradicional separa\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia\/tecnologia e sociedade, este cap\u00edtulo se desenvolve na contram\u00e3o das no\u00e7\u00f5es muito fortemente almejadas pelas concep\u00e7\u00f5es cient\u00edficas da era moderna. Aqui entendemos que as tecnologias <strong><em>n\u00e3o<\/em><\/strong> s\u00e3o puras, <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> s\u00e3o neutras, <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> s\u00e3o universais, <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> s\u00e3o lineares e <em><strong>n\u00e3o<\/strong><\/em> s\u00e3o totalizantes. Uma vez despojados destas prerrogativas modernas, permanecem conosco nossas viv\u00eancias, nosso tempo, nosso lugar no mundo, e a partir desses elementos abra\u00e7amos uma abordagem situada da inform\u00e1tica e da educa\u00e7\u00e3o na sociedade para verificar que inform\u00e1tica \u00e9 sociedade. Vamos em frente, como disse Boal em seu discurso de abertura do <a href=\"https:\/\/fsm2009amazonia.org.br\/\">F\u00f3rum Social Mundial em Bel\u00e9m do Par\u00e1, em 2009<\/a>: \u201ccom a cabe\u00e7a nas alturas, os p\u00e9s no ch\u00e3o e m\u00e3os \u00e0 obra!\u201d<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\" id=\"BOAL\">\n<h5>\u201cCom a cabe\u00e7a nas alturas, os p\u00e9s no ch\u00e3o e m\u00e3os \u00e0 obra!\u201d, por Augusto Boal<\/h5>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"APRENDENDO COM BOAL | FSM 2009 | PARTE 1\" width=\"750\" height=\"563\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/K2ono3A_yyw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nAprendendo com Boal | FSM 2009 (parte 1)<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=K2ono3A_yyw\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=K2ono3A_yyw<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"APRENDENDO COM BOAL | FSM 2009 | PARTE 2\" width=\"750\" height=\"563\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QZbhB3Y-wdE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nAprendendo com Boal | FSM 2009 (parte 2)<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QZbhB3Y-wdE\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QZbhB3Y-wdE<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>No discurso de abertura do F\u00f3rum Social Mundial de 2009, realizado em Bel\u00e9m do Par\u00e1. Boal trouxe assuntos do mundo para serem democraticamente discutidos e, como numa pra\u00e7a p\u00fablica, inevitavelmente, sua fala veio carregada de localidades, quest\u00f5es do Brasil, quest\u00f5es importantes naquele ano de 2009. Elementos das usuais categorias sobre as quais que estamos acostumados a estruturar nossas falas, discursos, textos acad\u00eamicos aparecem no discurso de Boal como uma rede: educa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica, cultura e arte, sem separa\u00e7\u00f5es. Para os que se acostumaram a caminhar sobre os trilhos dessas categorias, o texto pode parecer confuso, inconcluso, n\u00e3o preciso. No entanto, Boal foi, como Paulo Freire, um homem do seu tempo, com os p\u00e9s no ch\u00e3o e a cabe\u00e7a nas alturas. Por isso, nos intima: \u201cm\u00e3os \u00e0 obra\u201d. Discurso e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Obs.: O lindo painel atr\u00e1s do orador Augusto Boal est\u00e1 hoje no Centro do Teatro do Oprimido, na Lapa, Rio de Janeiro.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 2 --><\/p>\n<h2 id=\"s2\">2. Onde se encontra a linha divis\u00f3ria que separa a m\u00e1quina e o humano (o t\u00e9cnico e o social)?<\/h2>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos a ci\u00eancia moderna se organizou no sentido de construir proposi\u00e7\u00f5es que assumem uma apar\u00eancia neutra (como se viessem de lugar nenhum) e universal (como se valessem em qualquer lugar). Em suas apresenta\u00e7\u00f5es, os estudos de casos e exemplos costumam ocupar um papel meramente ilustrativo. Na apresenta\u00e7\u00e3o de uma teoria matem\u00e1tica, depois de toda uma formula\u00e7\u00e3o abstrata e das justificativas racionais expressas nos mesmos termos abstratos, costumam aparecer exemplos. Mas quem busca compreender a teoria sabe que, embora o foco seja dado \u00e0s formula\u00e7\u00f5es e justificativas em termos formais, o autor capricha na descri\u00e7\u00e3o dos exemplos, principalmente do exemplo no 1, aquele que vem logo em seguida \u00e0 defini\u00e7\u00e3o formal. Tanto o autor quanto o leitor sabem que \u00e9 esse exemplo que vai fornecer a compreens\u00e3o do que se est\u00e1 querendo dizer, e muitas vezes, o estudante vai diretamente a ele.<\/p>\n<p>A Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o \u00e9 um campo de saber que traz muito proximamente a necessidade de \u201cp\u00f4r para funcionar\u201d, \u201crodar na m\u00e1quina\u201d, e assim, apesar de todo esfor\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o de um conhecimento condizente com os preceitos de afastamento e isen\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia moderna, as materialidades do tempo presente est\u00e3o sempre saltando \u00e0s vistas e invadindo a cena da ci\u00eancia formal. Exploraremos neste cap\u00edtulo diversas situa\u00e7\u00f5es do nosso mundo e do nosso tempo que colocam em evid\u00eancia o imbricamento entre as coisas da vida e as teorias cient\u00edficas e\/ou constru\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. Repare que Inform\u00e1tica+Educa\u00e7\u00e3o residem justamente nesse imbricamento.  Mas conv\u00e9m chamar aten\u00e7\u00e3o para o fato de que esta coprodu\u00e7\u00e3o (produ\u00e7\u00e3o conjunta entre t\u00e9cnica e sociedade) n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio do nosso tempo, e nem tampouco do campo da computa\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o, e sempre foram, express\u00f5es da vida e modos de produ\u00e7\u00f5es para acompanhar suas demandas.<\/p>\n<p>Voltamos a recorrer aos povos origin\u00e1rios porque vivem uma experi\u00eancia que tem como foco o coletivo e n\u00e3o a produtividade. Cabem aqui duas ressalvas: quando falamos \u201ccoletivo\u201d com refer\u00eancia \u00e0 viv\u00eancia dos povos origin\u00e1rios n\u00e3o estamos nos referindo a uma reuni\u00e3o de pessoas. Como disseram os Mundurukus: \u201c<a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/files\/file\/PIB_verbetes\/munduruku\/carta_lugares_munduruku.pdf\">Os animais nos ensinam, nos avisam dos perigos que v\u00e3o acontecer<\/a>\u201d. \u00c9, portanto, uma coletividade heterog\u00eanea que inclui, por exemplo, ambiente, seres e coisas da floresta. Quando falamos de \u201cprodutividade\u201d com refer\u00eancia \u00e0 cultura branca hegem\u00f4nica, nos referimos \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de coisas, ideias e comportamentos que refor\u00e7am a l\u00f3gica dominante de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o do capital. Em certas culturas ind\u00edgenas conta-se \u201c<a href=\"#12345\">1,2,3,4,5 muitos<\/a>\u201d (quadro a seguir). As iniciativas de educa\u00e7\u00e3o formal, fundamentadas na cultura hegem\u00f4nica, avaliam a \u201cmatem\u00e1tica\u201d ind\u00edgena considerando-a primitiva, sem levar em conta que \u201cmatem\u00e1tica\u201d \u00e9 um conceito\/demanda da cultura hegem\u00f4nica. Possivelmente porque n\u00e3o necessitam assimilar a ideia de acumula\u00e7\u00e3o ilimitada, n\u00e3o faz sentido para os coletivos ind\u00edgenas distinguir o 6 do 7, o 1000 do 2000. Daniel Munduruku explica:  <\/p>\n<p class=\"blockquote\">As popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas t\u00eam uma outra vis\u00e3o de trabalho, produ\u00e7\u00e3o, riqueza, e isso est\u00e1 muito baseada na sua compreens\u00e3o de tempo. Para os ind\u00edgenas o momento, o agora, \u00e9 um presente que a gente recebe da natureza. O presente tem que ser usado imediatamente. Os povos ind\u00edgenas n\u00e3o desenvolveram a ideia de guardar coisas, acumular riquezas, de que um dia vai ser feliz e vai poder usufruir de tudo o que foi guardado. Essa \u00e9 a ideia do capitalismo (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=jDMUg7LPixM\">MUNDURUKU, 2020, 0.51 minutos<\/a>).<\/p>\n<p>A matem\u00e1tica hegem\u00f4nica possibilita a compreens\u00e3o e di\u00e1logo com a cultura hegem\u00f4nica, mas n\u00e3o deveria ser imposta a esses povos como forma de viver e pensar o mundo. A imposi\u00e7\u00e3o ocorre porque os conceitos da matem\u00e1tica hegem\u00f4nica s\u00e3o tomados pelas classes dominantes como sendo universais, por exemplo, o conceito de adi\u00e7\u00e3o \u00e9 naturalizado, tratado como se fosse a chuva, algo que todos conhecem ou deviam conhecer. Da\u00ed a imposi\u00e7\u00e3o, sobre pretexto de um suposto \u201cobscurantismo cultural\u201d. Situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga de domina\u00e7\u00e3o cultural \u00e9 almejar e imitar o modo de viver de pa\u00edses considerados desenvolvidos, \u201c<em>American way of life<\/em>\u201d como um referencial de sucesso e felicidade.<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\" id=\"12345\">\n<h5>\u201c1,2,3,4,5 muitos\u201d, contam Mundurukus e Waimiri-atroari<\/h5>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Belo Monte: lideran\u00e7a Munduruku manda recado para Governo Federal.\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zZjEy2m1Lro?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nV\u00eddeo gravado pela lideran\u00e7a ind\u00edgena C\u00e2ndido Munduruku por ocasi\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o do canteiro das obras em protesto \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da Usina de Belo Monte.<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zZjEy2m1Lro\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zZjEy2m1Lro<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cOs Mundurukus, do sul do Par\u00e1, os Waimiri-atroari contam somente at\u00e9 cinco, pelo menos \u00e9 s\u00f3 at\u00e9 esse n\u00famero que eles t\u00eam um voc\u00e1bulo: 1 \u00e9 awynimi, 2, typytyna; 3, takynyma; 4, takynynapa; e 5, warenypa (que significa uma m\u00e3o). Alguns professores \u00edndios resolveram durante o curso de forma\u00e7\u00e3o continuar a numera\u00e7\u00e3o at\u00e9 dez na l\u00edngua, usando o processo de adi\u00e7\u00e3o. Assim, por exemplo, o sete foi denominado de takynyma takynnynapa (3+4) etc.<\/p>\n<p>Quando voltaram para suas aldeias e foram discutir isso com as lideran\u00e7as, a ideia foi totalmente recha\u00e7ada. A alega\u00e7\u00e3o dos l\u00edderes foi que eles estavam alterando a l\u00edngua e como a escola era um elemento n\u00e3o ind\u00edgena, apesar de todos eles valorizarem-na muito, quando os professores fossem ensinar numera\u00e7\u00e3o acima de cinco deveriam utilizar a nomenclatura do portugu\u00eas. Na escola as crian\u00e7as s\u00e3o alfabetizadas nas duas l\u00ednguas, a materna e o portugu\u00eas.\u201d (<a href=\"#FERREIRA2001\">FERREIRA, 2001<\/a>)<br \/>\n<\/section>\n<p>Se a ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o express\u00f5es da vida, uma compreens\u00e3o ampla dessas produ\u00e7\u00f5es envolve a considera\u00e7\u00e3o das coisas da vida onde essas produ\u00e7\u00f5es foram pensadas ou s\u00e3o postas a operar. Por este motivo vamos iniciar a partir daqui a discuss\u00e3o de um conjunto de estudos de casos, problemas, exemplos ou cen\u00e1rios. Embora possa parecer uma abordagem um tanto diferente, vamos lembrar que j\u00e1 na \u00e9poca da concep\u00e7\u00e3o do computador, havia um consenso de que a correspond\u00eancia entre uma proposta formal e a no\u00e7\u00e3o informal que a inspirou n\u00e3o pode ser provada e \u201cprecisa ser aceita ou rejeitada em bases que s\u00e3o, em grande parte, emp\u00edricas\u201d (<a href=\"#ROGERS1967\">ROGERS, 1967<\/a>, p. 20). Seguimos ent\u00e3o a sugest\u00e3o de Alan Turing (<a href=\"#TURING1936\">1936<\/a>, p.249), que, na impossibilidade de provar que sua proposta de m\u00e1quina era matematicamente equivalente ao conceito de \u201ccomputar\u201d, declaradamente assumiu fazer apelos diretos \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e lan\u00e7ar m\u00e3o de v\u00e1rios exemplos (quadro a seguir).<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>Ci\u00eancia humanas e exatas: em ambas, exemplos, intui\u00e7\u00e3o e subjetividades<\/h5>\n<figure><a href=\"https:\/\/londmathsoc.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/epdf\/10.1112\/plms\/s2-42.1.230\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936.png\" alt=\"Turing 1936\" width=\"2847\" height=\"1827\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2902\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936.png 2847w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936-300x193.png 300w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936-1024x657.png 1024w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936-768x493.png 768w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936-1536x986.png 1536w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/turing1936-2048x1314.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2847px) 100vw, 2847px\" \/><\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/londmathsoc.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1112\/plms\/s2-42.1.230\">On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem<\/a><figcaption>Fonte: <a href=\"#TURING1936\">TURING, 1936<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>Objetividade, rigor, precis\u00e3o e acur\u00e1cia s\u00e3o caracter\u00edsticas comumente associadas \u00e0 matem\u00e1tica. Na concep\u00e7\u00e3o moderna, a matem\u00e1tica foi tomada como modelo de racioc\u00ednio met\u00f3dico, servindo como par\u00e2metro para todas as ci\u00eancias. No s\u00e9culo XVII, Descartes (<a href=\"#DESCARTES1989\">1989<\/a>, regra IV) afirmava que \u201co m\u00e9todo \u00e9 necess\u00e1rio para a busca da verdade\u201d situando na base deste m\u00e9todo, a \u201cMatem\u00e1tica Universal\u201d que conteria \u201ctudo o que contribui para que as outras ci\u00eancias se chamem partes da Matem\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Embora obviamente elaborada em outros termos e contextos por Ren\u00e9 Descartes, esta hierarquia de conhecimentos assumiu novos contornos e radicalizou-se a ponto de justificar o desmerecimento de saberes considerados human\u00edsticos, ou subjetivos. Para citar uma ocorr\u00eancia bem atual, a<a href=\"https:\/\/www.mctic.gov.br\/mctic\/opencms\/legislacao\/portarias\/Portaria_MCTIC_n_1122_de_19032020.html\"> portaria do Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologias, Inova\u00e7\u00f5es e Comunica\u00e7\u00f5es<\/a> excluiu as ci\u00eancias humanas do rol de prioridades do CNPq. Pouco tempo depois, o governo federal vetaria o <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/657134-regulamentacao-da-profissao-de-historiador-e-vetada-pelo-presidente-da-republica\/\">projeto que regulamenta a profiss\u00e3o de Historiador<\/a> que seria um passo no reconhecimento de que a contribui\u00e7\u00e3o desse campo de saber n\u00e3o se restringe \u00e0 sala de aula.<\/p>\n<p>No entanto, o artigo seminal que fundamenta toda a computa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea deixa claro que mesmo os procedimentos mais rigorosos, precisos, matem\u00e1ticos, incorporam percep\u00e7\u00f5es, subjetividades e intui\u00e7\u00f5es, mostrando, portanto, que a \u201cexatid\u00e3o\u201d n\u00e3o serve de par\u00e2metro para a classifica\u00e7\u00e3o dos saberes. Como ent\u00e3o se justifica a divis\u00e3o entre as ci\u00eancias exatas e as n\u00e3o-exatas?<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 3 --><\/p>\n<h2 id=\"s3\">3. A materialidade dos artefatos, intangibilidade das ideias e corporeidade dos humanos&#8230; ou tudo junto e misturado?<\/h2>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/spoiler.jpg\" alt=\"Alerta de Spoiler\" width=\"547\" height=\"92\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2904\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/spoiler.jpg 547w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/spoiler-300x50.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><\/p>\n<p>Em 2013 foi lan\u00e7ado o filme ELA (<a href=\"#ELA2013\">2013<\/a>), cujo enredo mostrava o envolvimento do personagem principal Theodore com um sistema operacional. Costumamos chamar de \u201csistema operacional\u201d um programa de computador que gerencia os recursos da m\u00e1quina e simplifica o acesso para o usu\u00e1rio. Mas aqui, numa reconceitua\u00e7\u00e3o no encontro do que seria dito \u201ct\u00e9cnico\u201d com o que seria dito \u201csocial\u201d, o conceito de \u201csistema operacional\u201d \u00e9 mesclado com ideias do campo da Intelig\u00eancia Artificial e da vida, mostrando que esse sistema tamb\u00e9m gerencia recursos da vida do usu\u00e1rio. A opera\u00e7\u00e3o do sistema no filme come\u00e7a pela configura\u00e7\u00e3o do software por voz. No lugar das esperadas perguntas do campo da t\u00e9cnica, uma voz masculina padr\u00e3o surpreende com perguntas sobre a personalidade do usu\u00e1rio. Da\u00ed, ap\u00f3s um breve tempo de opera\u00e7\u00e3o, surge Samantha, voz sensualizada, um programa de computador pelo qual Theodore vem a se apaixonar. Essa rela\u00e7\u00e3o meio-humana, meio-maqu\u00ednica apresenta-se sedutora e com efeito supera contratempos diversos. No entanto, apesar de colocar-se como companheira ideal, h\u00e1 momentos em que Samantha encontra dificuldade em corresponder \u00e0s expectativas do humano Theodore, pelo menos daquele humano Theodore, que se surpreende com os grandes n\u00fameros que integram a exist\u00eancia de Samantha, pelo menos daquela Samantha que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de se decepcionar com as expectativas de Theodore. Conhecemos a capacidade dos computadores alterarem as escalas, de tornarem vi\u00e1veis as grandes quantidades ambicionadas pelos modos de exist\u00eancia que necessitam contar al\u00e9m de 1, 2, 3, 4, 5, muitos. Alterar as escalas do nosso mundo, as quantidades com que vivemos, interfere n\u00e3o s\u00f3 na ger\u00eancia de nossos recursos como tamb\u00e9m nos relacionamentos que buscamos. Tanto \u00e9 assim que a partir do di\u00e1logo no quadro a seguir, Theodore se d\u00e1 conta de que Samantha n\u00e3o pode lhe satisfazer totalmente e encontra for\u00e7as para buscar outra rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><!-- QUADRO CINECLUB --><\/p>\n<section class=\"quadro cineclube\">\n<h5>CINECLUBE: &#8220;ELA&#8221; (2013)<\/h5>\n<section class=\"cineclube_cartaz\">\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SjZudKgH_OY\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Her.jpg\" alt=\"Ela (2013)\" width=\"327\" height=\"484\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2905\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Her.jpg 327w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Her-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><br \/>\nDispon\u00edvel no <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SjZudKgH_OY\">YouTube<\/a><br \/>\n<\/section>\n<section class=\"cineclube_sinopse\">\nTheodore: Voc\u00ea conversa com algu\u00e9m mais enquanto n\u00f3s conversamos?<br \/>\nSamantha: Sim.<br \/>\nTheodore: Voc\u00ea est\u00e1 conversando com outro agora, neste momento? Pessoa? Sistema Operacional? O que seja?<br \/>\nSamantha: Sim.<br \/>\nTheodore: Quantos outros?<br \/>\nSamantha: 8.316.<br \/>\nTheodore: Voc\u00ea est\u00e1 amando algu\u00e9m outro?<br \/>\nSamantha: Por que voc\u00ea pergunta isso?<br \/>\nTheodore: Eu n\u00e3o sei. Voc\u00ea est\u00e1?<br \/>\nSamantha: Estive pensando sobre como conversar com voc\u00ea sobre isso.<br \/>\nTheodore: Quantos outros?<br \/>\nSamantha: 641.<br \/>\n<\/section>\n<\/section>\n<p>Este Theodore mant\u00e9m em si um reduto ao abrigo da desenfreada contagem, quantifica\u00e7\u00e3o e pontua\u00e7\u00e3o da modernidade americana-euroc\u00eantrica. Quem se identifica com os sentimentos de Theodore constr\u00f3i as fronteiras que delimitam aquele reduto nos eixos ficcionalidades-realidades do filme. No Entanto, quando o sexo entra em cena, configura-se outro impedimento, ou melhor, como nos ocorrer\u00e1 logo em seguida, outro constrangimento: Samantha n\u00e3o tem corpo. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentada pelo pr\u00f3prio software: um corpo emprestado.<\/p>\n<p>O filme despertou rea\u00e7\u00f5es das mais diversas, manifesta\u00e7\u00f5es otimistas e pessimistas, constrangimentos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 conviv\u00eancia homem-m\u00e1quina e ao corpo emprestado, mas sempre acompanhadas da importante ressalva de que o filme apresenta um cen\u00e1rio ainda no campo da fic\u00e7\u00e3o. Assim, constrangidos com a possibilidade de termos nossos corpos emprestados \u00e0s m\u00e1quinas, mas seguros com a certeza de que o enredo \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, voltamos para casa, guiados pelo <a href=\"https:\/\/www.waze.com\/pt-BR\/\">Waze<\/a> que nos livra dos engarrafamentos. No percurso, o software nos apresenta um pedido por uma fotografia do local por onde passamos, de modo que ele possa apresentar informa\u00e7\u00f5es mais apuradas a quem vier a passar por ali (Figura 1). Prontamente, emprestamos o nosso corpo ao Waze que, incorp\u00f3reo como Samantha, necessita de ajuda para a realiza\u00e7\u00e3o de uma tarefa imposs\u00edvel a ele. Quais ser\u00e3o, agora, as fronteiras que delimitam os eixos ficcionalidades-realidades?<br \/>\n<!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><a href=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/waze.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/waze.png\" alt=\"Waze\" width=\"290\" height=\"442\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2907\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/waze.png 290w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/waze-197x300.png 197w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/a><br \/>\nFigura 1: Tela do aplicativo WAZE com a op\u00e7\u00e3o de tirar foto<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.waze.com\/pt-BR\/\">Waze<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- QUADRO ATIVIDADE --><\/p>\n<section class=\"quadro atividade\" id=\"deepnude\">\n<h5>ATIVIDADE: Deep nude, a representa\u00e7\u00e3o conforma (e \u00e9 conformada pel)o real<\/h5>\n<p>Discuta a abordagem onde o social e o t\u00e9cnico s\u00e3o categorias separadas cujas intera\u00e7\u00f5es s\u00e3o analisadas sob a condi\u00e7\u00e3o de \u201cimpactos\u201d. At\u00e9 que ponto esta abordagem nos ajuda a refletir sobre a situa\u00e7\u00e3o ilustrada no filme ELA. Aqui \u201co social\u201d e o \u201ct\u00e9cnico\u201d poderiam ser representados pelos termos \u201chumano\u201d e \u201cm\u00e1quina\u201d e \u201cdefinir os impactos\u201d de um sobre o outro requer tr\u00eas movimentos:<br \/>\n(1) Caracterizar o que seria essencialmente \u201chumano\u201d ou \u201cm\u00e1quina\u201d.<br \/>\n(2) Definir a linha divis\u00f3ria que separa humano e m\u00e1quina.<br \/>\n(3) Hierarquizar humano e m\u00e1quina de modo que um possa exercer impactos sobre o outro.<br \/>\nLembramos aqui que o passo (1) remete \u00e0s discuss\u00f5es dos matem\u00e1ticos do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, que levaram \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do computador.  <\/p>\n<p>De 2013, data do lan\u00e7amento do filme ELA, at\u00e9 hoje, muita coisa j\u00e1 aconteceu no campo das tecnologias e suas rela\u00e7\u00f5es com humanos. Vejamos um exemplo recente:<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/deepnude.jpg\" alt=\"deepnude\" width=\"381\" height=\"99\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2909\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/deepnude.jpg 381w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/deepnude-300x78.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px\" \/><figcaption><a href=\"https:\/\/deepnudeonline.com\/\">Welcome to DeepNude Online v1.5. Nudify any photo using power of Deepnude algorithms &#8211; no download, try it out for free!<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>Estes s\u00e3o os dizeres no s\u00edtio da internet de um aplicativo que inventa um corpo nu. Basta enviar uma foto e ver\u00e1 a pessoa despida. N\u00e3o h\u00e1 motivo para p\u00e2nico, todos sabemos que \u00e9 um corpo inventado. Tudo n\u00e3o passa de uma representa\u00e7\u00e3o produzida por um algoritmo. Mas a representa\u00e7\u00e3o conforma a realidade: o corpo inventado ganha o mundo, se espalha nas redes sociais. Pronto! Est\u00e1 l\u00e1, circulando nas redes, o corpo real e a pessoa identificada pela foto. A representa\u00e7\u00e3o conformou o real. O aplicativo adverte em letras mai\u00fasculas: \u201cWE DO NOT TAKE ANY RESPONSIBILITY FOR IMAGES CREATED WITH THIS SOFTWARE\u201d. Mas sabemos que as responsabilidades v\u00e3o muito al\u00e9m das imagens inventadas pela m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Junto com o seu grupo de trabalho, elabore coletivamente as seguintes quest\u00f5es:<br \/>\n(1) Imagine situa\u00e7\u00f5es que podem decorrer do uso deste aplicativo e seus efeitos na vida da pessoa cujo rosto foi utilizado, e elenque um conjunto de direitos e deveres dos atores envolvidos.<br \/>\n(2) Imagine e descreva um mecanismo que proteja o indiv\u00edduo da viola\u00e7\u00e3o de seus direitos essenciais por este software. Observe que, considerando a abordagem dos \u201cimpactos\u201d, o mecanismo que voc\u00ea vai propor pertenceria ao dom\u00ednio \u201csocial\u201d enquanto o software pertenceria ao dom\u00ednio da \u201ct\u00e9cnica\u201d. No entanto, para descrever o mecanismo, voc\u00ea transitar\u00e1 pelos dois dom\u00ednios indistintamente, a despeito de qualquer fronteira que seja estabelecida entre eles.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 4 --><\/p>\n<h2 id=\"s4\">4. Trabalho alienado &#8230; trabalho apropriado &#8230; trabalho?<\/h2>\n<p>O in\u00edcio do s\u00e9culo XXI nos apontou novas perspectivas a partir das rela\u00e7\u00f5es entre os computadores e os entretenimentos. Entre elas, os jogos de computadores passaram a contar massivamente com os recursos da internet e de uma multid\u00e3o de usu\u00e1rios constantemente conectados. No ano de 2004 foi lan\u00e7ado o jogo ESP (Figura 2), funcionando resumidamente com a seguinte din\u00e2mica: a partida se estabelece entre dois jogadores online, sem que um tenha qualquer conhecimento a respeito do outro. Uma imagem \u00e9 mostrada na tela e os dois jogadores escrevem uma legenda. Os dois pontuam quando a legenda coincide.<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/jogoESP.jpg\" alt=\"jogo ESP\" width=\"693\" height=\"508\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2911\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/jogoESP.jpg 693w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/jogoESP-300x220.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 693px) 100vw, 693px\" \/><br \/>\nFigura 2: Tela do jogo ESP<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/ESP_game\">Wikipedia<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Esse jogo inaugura uma classe denominada por seu criador de \u201cjogos com prop\u00f3sito\u201d porque h\u00e1, por tr\u00e1s do jogo, alguma tarefa a ser produzida, e os jogadores atuam como trabalhadores (<em>game-workers<\/em>) que v\u00e3o executar esta tarefa. Embora n\u00e3o houvesse na tela nenhuma informa\u00e7\u00e3o a respeito de algum prop\u00f3sito al\u00e9m da divers\u00e3o, o ESP visava criar um imenso banco de imagens rotuladas. Em julho de 2006, o criador do jogo anunciava cerca de 15 milh\u00f5es de imagens rotuladas por 75 mil jogadores\/trabalhadores.<\/p>\n<p>A ideia de trabalho est\u00e1 s\u00f3lida e mesmo biblicamente associada a um sacrif\u00edcio. Ser\u00e1 que se pode falar de trabalho quando esta associa\u00e7\u00e3o \u00e9 rompida? O que se pode dizer quando o trabalho est\u00e1 associado a atividade de jogar, a um prazer e n\u00e3o a um sacrif\u00edcio? No s\u00e9culo XVIII, o Marqu\u00eas de Sade apresentou, em seus escritos, as orgias como rigorosamente planejadas e detalhadamente quantificadas, sugerindo que <a href=\"#prazer\">o prazer moderno est\u00e1 associado ao cumprimento de um programa<\/a> (quadro a seguire), algo pr\u00f3ximo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o em um jogo (<a href=\"#H\u00c9NAFF1995\">H\u00c9NAFF, 1995<\/a>, cap 13). <\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\" id=\"prazer\">\n<h5>Marqu\u00eas de Sade e o prazer como m\u00e9todo<\/h5>\n<section class=\"cineclube_cartaz\">\n      <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Sade-Invention-Libertine-Marcel-Henaff\/dp\/0816625379\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Imagem-da-capa-de-livro-de-H\u00e9naff-194x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"194\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3008\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Imagem-da-capa-de-livro-de-H\u00e9naff-194x300.jpeg 194w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Imagem-da-capa-de-livro-de-H\u00e9naff.jpeg 388w\" sizes=\"auto, (max-width: 194px) 100vw, 194px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Dispon\u00edvel na <a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Sade-Invention-Libertine-Marcel-Henaff\/dp\/0816625379\">Amazon<\/a><br \/>\n    <\/section>\n<section class=\"cineclube_sinopse\">\nNo s\u00e9culo XVIII, o Marqu\u00eas de Sade detalhadamente apresentou, em seus famosos e infames escritos, as orgias como rigorosamente planejadas e detalhadamente quantificadas. Seus argumentos mostram um \u201cprazer moderno\u201d associado ao cumprimento de um \u201cprograma\u201d, a um \u201cm\u00e9todo de apatia libertina que consiste em canalizar e analisar a energia sem jamais ceder ao entusiasmo ou ao frenesi\u201d. Sade mostrou como o corpo encontrou seu destino t\u00e9cnico-industrial, e nesse destino a possibilidade banal de uma rela\u00e7\u00e3o p\u00f3s-amorosa ent\u00e3o se abriu. Mostrou, portanto, que existem t\u00e9cnicas de prazer que n\u00e3o guardam nenhuma rela\u00e7\u00e3o seja com desejos de sedu\u00e7\u00e3o ou ritos de reconhecimento (<a href=\"#H\u00c9NAFF1995\">H\u00c9NAFF, 1995<\/a>, p.228). O Marqu\u00eas de Sade traz o dom\u00ednio das mais violentas pervers\u00f5es com o resultado paradoxal que elas est\u00e3o integradas no campo da raz\u00e3o encobertas pela neutralidade operacional de um m\u00e9todo. Por isso ele nos toca e nos perturba(<a href=\"#H\u00c9NAFF1995\">H\u00c9NAFF, 1995<\/a>, p.233). A figura publicada no <a href=\"https:\/\/www.correiodopovo.com.br\/arteagenda\/fran%C3%A7a-declara-os-120-dias-de-sodoma-tesouro-nacional-para-evitar-venda-1.249737\">Correio do Povo<\/a> mostra trecho de \u201cOs 120 dias de Sodoma\u201d, famosa obra de Sade, escrita na pris\u00e3o da Bastilha em 1785. Para evitar a persegui\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o de seu trabalho <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2014\/03\/140318_marques_sade_pai_df\">ele recopiou o texto com uma letra min\u00fascula e colou as folhas para formar um fino rolo de papel, que tinha 12 metros de comprimento<\/a>.<br \/>\n<\/section>\n<\/section>\n<p>Ao associar trabalho, ou ao menos um determinado tipo de trabalho, a prazer, os jogos com prop\u00f3sito sugerem o rompimento de uma associa\u00e7\u00e3o b\u00edblica de trabalho a sacrif\u00edcio. Tamb\u00e9m nada \u00e9 t\u00e3o distante quanto esses jogos daquilo que disseram grandes pensadores da modernidade do s\u00e9culo XIX, que erigiram s\u00f3lidos edif\u00edcios de conhecimentos disciplinares sobre quest\u00f5es do trabalho. Ser\u00e1 que os computadores, ao instalarem-se em certos redutos do mundo do trabalho pela via do jogo, v\u00eam ironicamente confirmar que \u201c<a href=\"#solido\">tudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar<\/a>\u201d (quadro a seguir)? Ser\u00e1 que os jogos com prop\u00f3sito vieram, como os computadores, para ficar e criar uma esp\u00e9cie de anestesia para as dores do trabalho? A erotiza\u00e7\u00e3o da contabilidade e da combinat\u00f3ria implica a paix\u00e3o pelos retornos do capital e pela temporalidade abstrata de programar e cumprir um programa. Nessa fabrica\u00e7\u00e3o do prazer tudo pode ser representado e realizado, exceto o amor. (<a href=\"#H\u00c9NAFF1995\">H\u00c9NAFF, 1995<\/a>, p.233) <\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\" id=\"solido\">\n<h5>\u201cTudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha no ar\u201d<\/h5>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/manifesto.jpg\" alt=\"Manifesto\" width=\"321\" height=\"37\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2912\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/manifesto.jpg 321w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/manifesto-300x35.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 321px) 100vw, 321px\" \/><br \/>\nT\u00edtulo da primeira edi\u00e7\u00e3o do Manifesto Comunista<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manifesto_Comunista\">Wikipedia<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Dia 21 de fevereiro de 1848 \u00e9 a data de publica\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manifesto_Comunista\">Manifesto Comunista<\/a>, escrito por Marx e Engels. Era um momento de lutas urbanas, decorrentes das grandes mudan\u00e7as impostas pela substitui\u00e7\u00e3o das manufaturas por m\u00e1quinas, f\u00e1bricas e m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o. Marx e Engels dirigiram o manifesto aos trabalhadores do mundo, para al\u00e9m das fronteiras entre as na\u00e7\u00f5es, para que tomassem consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o social e lutassem contra a opress\u00e3o encarnada no trabalho subjugado. Com o seu papel social relegado \u00e0 import\u00e2ncia de uma simples pe\u00e7a no acelerado processo de produ\u00e7\u00e3o industrial, o trabalho foi ressignificado deixando o oper\u00e1rio desmotivado e miser\u00e1vel, coisificado. Para Marx e Engels, uma vez vencida a luta de classes, a aboli\u00e7\u00e3o da propriedade e a consci\u00eancia de social garantiriam uma nova ordem sem a reprodu\u00e7\u00e3o dos mecanismos de opress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"blockquote\">\u201cTudo o que era s\u00f3lido e est\u00e1vel se desmancha no ar, tudo o que era sagrado \u00e9 profanado e os homens s\u00e3o obrigados finalmente a encarar sem ilus\u00f5es a sua posi\u00e7\u00e3o social e as rela\u00e7\u00f5es com os outros homens.\u201d (<a href=\"#MARX2005\">MARX; ENGELS, 2005<\/a>, p.43)<\/p>\n<p>No trecho citado acima, Marx e Engels se referiam \u00e0s mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es sociais e de trabalho decorrentes da apropria\u00e7\u00e3o do controle dos meios de produ\u00e7\u00e3o pela burguesia. Estas mudan\u00e7as fizeram dissolver rela\u00e7\u00f5es antigas e cristalizadas, ideias secularmente veneradas. Deram lugar uma nova ordem onde a burguesia assumia a propriedade e controle da produ\u00e7\u00e3o, configurando-se como a classe opressora. Esta nova ordem, no entanto, desmoronaria antes de se consolidar porque os oper\u00e1rios tomariam consci\u00eancia de sua condi\u00e7\u00e3o de explorados.<br \/>\n<\/section>\n<p>No mesmo ano de 2006, a Google adquiriu uma licen\u00e7a para criar uma vers\u00e3o pr\u00f3pria do ESP (Figura 2), que possivelmente contribuiu na forma\u00e7\u00e3o da cole\u00e7\u00e3o de imagens que vemos ao teclar a aba \u201cimagens\u201d na tela de consulta Google. Pode-se presumir a imensid\u00e3o de dados e de d\u00f3lares que o jogo movimentou. Trata-se evidentemente de uma apropria\u00e7\u00e3o de um trabalho n\u00e3o autorizado e alienado (uma vez que o usu\u00e1rio n\u00e3o sabe que trabalha), mas o prop\u00f3sito alegado \u00e9 filantr\u00f3pico: disponibiliza\u00e7\u00e3o gratuita de imagens com metadados para possibilitar a localiza\u00e7\u00e3o por texto e o funcionamento de leitores de tela destinados a deficientes visuais.<\/p>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\" id=\"ComputacaoHumana\">\n<h5>Computa\u00e7\u00e3o Humana<\/h5>\n<p>Computa\u00e7\u00e3o Humana \u00e9 um subcampo da Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o que surgiu no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, com a publica\u00e7\u00e3o do artigo de Ahn sobre Captchas (<a href=\"#AHN2004\">AHN; BLUM; LANGFORD, 2004<\/a>). Este subcampo abra\u00e7a a ideia de Sistemas Computacionais onde uma imensa quantidade de seres humanos conectados em rede efetuam, de modo consciente ou n\u00e3o, micro-tarefas que constituem parte do processamento computacional.<\/p>\n<p>Faz parte do senso comum a ideia de que computadores podem ser inseridos em seres humanos como  pr\u00f3teses, pe\u00e7as que colaboram para o bom funcionamento do organismo. Nesse paradigma, a mente humana, ou seja, o controle, permanece resguardada. A Computa\u00e7\u00e3o Humana, no entanto, \u00e9 desconcertante porque reverte esse sentido. Seres humanos agem como pe\u00e7as de uma engrenagem maior, cumprindo micro tarefas. Eles n\u00e3o sabem que contribuem e desconhecem o prop\u00f3sito para o qual contribuem. O controle escapa dos humanos. O controle \u00e9 o sistema (<a href=\"#CAFEZEIRO2014\">CAFEZEIRO et al, 2014<\/a>). A Computa\u00e7\u00e3o Humana \u00e9 hoje um campo academicamente reconhecido, contando com um <a href=\"https:\/\/www.humancomputation.com\/\">congresso anual<\/a> e um <a href=\"http:\/\/hcjournal.org\/ojs\/index.php?journal=jhc\">peri\u00f3dico cient\u00edfico<\/a>.<br \/>\n<\/section>\n<p>Os criadores deste conceito (o de <a href=\"#ComputacaoHumana\">Computa\u00e7\u00e3o Humana<\/a>, apresentado no quadro acima) defendem algumas prerrogativas para um jogo desta classe. Uma delas \u00e9 que deve haver um processo de convencimento para que o jogador se disponha a fazer um trabalho n\u00e3o remunerado. O divertimento \u00e9 apontado como a grande motiva\u00e7\u00e3o, o que sugere que o jogador n\u00e3o deve se perceber trabalhando (<a href=\"#LAW2011\">LAW; AHN, 2011<\/a>). Entretanto, outros jogos, como o <a href=\"https:\/\/fold.it\/\">Fold it<\/a>, que tamb\u00e9m utilizam t\u00e9cnicas de computa\u00e7\u00e3o humana apresentam explicitamente o prop\u00f3sito a que se destina o trabalho produzido pela divers\u00e3o, fazendo claramente deste artif\u00edcio uma motiva\u00e7\u00e3o adicional para o jogo.<\/p>\n<p><!-- QUADRO DEBATE --><\/p>\n<section class=\"quadro debate\" id=\"solido\">\n<h5>DEBATE: Tudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha nas nuvens da Google &#8230;<\/h5>\n<p>A vida e as tecnologias que s\u00e3o as nossas respostas \u00e0s demandas dos acontecimentos, nos colocam diante de situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o previstas. Nesse exato momento em que escrevemos este texto o mundo vive a pandemia do COVID19. Um pequeno v\u00eddeo circulou nas redes sociais, \u201cfinalmente compreendemos o que significa estarmos todos conectados\u2026 este v\u00edrus \u00e9 parte de n\u00f3s, est\u00e1 entre n\u00f3s, conectou todos n\u00f3s, \u2026 depende de n\u00f3s a perspectiva que vamos escolher, mas o melhor \u00e9 estar atento a todas elas.\u201d Em um outro v\u00eddeo um f\u00edsico lan\u00e7a m\u00e3o de analogias e anima\u00e7\u00e3o para explicar o modelo matem\u00e1tico da pandemia:<\/p>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Coronavirus e Vit\u00f3rias-R\u00e9gias: Entendendo a Curva Exponencial do Coronavirus\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/s-lgS-4Xqy0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nCoronavirus e Vit\u00f3rias-R\u00e9gias: Entendendo a Curva Exponencial do Coronavirus<figcaption>Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=s-lgS-4Xqy0<\/figcaption><\/figure>\n<p>O momento \u00e9 de amplitude, o que implica em considerar, ao mesmo tempo uma diversidade de saberes conectados. Sa\u00fade, Matem\u00e1tica, Filosofia e Antropologia requisitam-se umas \u00e0s outras. Precisamos inventar maneiras de lidar com a pandemia, e estas inova\u00e7\u00f5es s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis num espa\u00e7o de mistura de saberes, ultrapassando as fronteiras disciplinares que foram pensadas e constru\u00eddas em outros contextos.<\/p>\n<p>A vida e as tecnologias nos colocam diante de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o foram previstas pelas ferramentas de an\u00e1lise que hoje dominamos. A conectividade que se materializa nas redes de computadores acompanha o desenho inst\u00e1vel das redes de relacionamentos que se estabelecem em nossas vidas. Ubiquidade, heterogeneidade, volatilidade, intangibilidade, interoperabilidade, tudo que parece s\u00f3lido se desmancha nas redes.  Assim como todas as coisas, o trabalho tamb\u00e9m deve ser repensado em termos das redes inst\u00e1veis. Trabalho apropriado? Trabalho alienado? Trabalho divers\u00e3o? Trabalho sacrif\u00edcio? A mesma configura\u00e7\u00e3o que abre imensas possibilidades de novas formas de trabalho tamb\u00e9m p\u00f5e em risco as conquistas que foram duramente desenhadas ao longo de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Observe nas redes sociais que tipo de trabalho remunerado vem sendo possibilitado atrav\u00e9s da Internet. Fa\u00e7a registros, colecione artigos que possam documentar estas novas formas de trabalho. Reflita com seu grupo de estudo que preju\u00edzos legais em termos de direitos trabalhistas v\u00eam sendo apontados por estas novas configura\u00e7\u00f5es do trabalho.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 5 --><\/p>\n<h2 id=\"s5\">5. Machine learning racista<\/h2>\n<p>Abstendo-se de qualquer controv\u00e9rsia a respeito da automatiza\u00e7\u00e3o do trabalho ou do trabalho alienado, em setembro de 2011, a Google decidiu descontinuar a sua ferramenta gamificada de rotula\u00e7\u00e3o de imagens, mais conhecida como <a href=\"https:\/\/crowdsource.google.com\/imagelabeler\/category\">Google Image Labeler<\/a>. Ap\u00f3s 5 anos de atividade, a aplica\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a sofrer com a concorr\u00eancia de outros aplicativos \u201cl\u00fadicos\u201d (financiados pela pr\u00f3pria Google) e com o desgaste causado por usu\u00e1rios que criticavam a empresa nas redes sociais por se beneficiar de um esfor\u00e7o coletivo sem mostrar os resultados \u201csociais\u201d prometidos. Parece que entre o lan\u00e7amento do ESP (Figura 2), em 2004, e a prolifera\u00e7\u00e3o de aplicativos para dispositivos m\u00f3veis (a partir de 2010) alguma coisa mudou. Os usu\u00e1rios j\u00e1 n\u00e3o estavam t\u00e3o suscet\u00edveis \u00e0s propostas de micro-tarefas em prol da comunidade enquanto o mercado de aplicativos m\u00f3veis faturava milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Sem mencionar as cr\u00edticas que o Google Image Labeler vinha sofrendo, Alan Eustace, na \u00e9poca vice-presidente s\u00eanior da corpora\u00e7\u00e3o, anunciou o fim da ferramenta com a seguinte mensagem: \u201clan\u00e7amos o Google Image Labeler como um jogo divertido para ajudar as pessoas a explorar e rotular imagens na web. Embora a aplica\u00e7\u00e3o esteja sendo descontinuada, uma grande variedade de jogos online da Google ainda est\u00e3o dispon\u00edveis\u201d (<a href=\"https:\/\/latimesblogs.latimes.com\/technology\/2011\/09\/google-shuts-down-aardvark-and-9-other-companies.html\">Los Angeles Times, 2011<\/a>, tradu\u00e7\u00e3o dos autores). O Google Image Labeler foi relan\u00e7ado em 2016. A ferramenta regressou sem o perfil gamificado e articulada para deixar expl\u00edcito que se tratava de um projeto com o fim espec\u00edfico de rotular imagens, destacando que o trabalho n\u00e3o seria remunerado. <\/p>\n<p>Muitas vezes os empreendimentos cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos conseguem aparentar uma posi\u00e7\u00e3o neutra e distanciada dos efeitos desencadeados pelas t\u00e9cnicas ou tecnologias que produzem. Esse foi o caso de uma aplica\u00e7\u00e3o para armazenamento ilimitado e gratuito de fotos, o <a href=\"https:\/\/www.google.com\/photos\/about\/\">Google Photos<\/a>. Lan\u00e7ado em maio de 2015, cerca de 10 anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do trabalho que propunha uma solu\u00e7\u00e3o para a rotulagem de imagens em larga escala atrav\u00e9s de jogo (<a href=\"#AHN2004\">AHN; DABBISH, 2004<\/a>), o Google Photos al\u00e9m de cumprir a fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de armazenamento pessoal prometia o acesso simplificado em m\u00faltiplas plataformas, a organiza\u00e7\u00e3o de acervo por linha do tempo (cria\u00e7\u00e3o de linhas do tempo de imagens) e a cereja do bolo: um filtro de buscas que agrupava imagens em \u00e1lbuns ou categorias atrav\u00e9s do reconhecimento de rostos, lugares ou objetos, desde um passeio de bicicleta com os amigos, at\u00e9 momentos marcantes de nossas vidas, como uma cerim\u00f4nia de formatura. Organiza\u00e7\u00e3o, praticidade e efici\u00eancia eram as promessas do Google Photos.<\/p>\n<p>Vivemos em uma \u00e9poca onde nos sentimos literalmente inundados pela vaz\u00e3o dos conte\u00fados que produzimos: a cada passo um <em>selfie<\/em> marca o compasso de muitas vidas nas redes sociais. Jacky Alcin\u00e9, um jovem norte-americano, residente no Brooklyn, talvez estivesse se sentindo angustiado com o caos de imagens eletr\u00f4nicas jogadas aleatoriamente em seus dispositivos pessoais, e, por isso, decidiu confiar o seu cotidiano em selfies e fotos a essa promessa de efici\u00eancia. Podemos ver na Figura 3 que o Google Photos de fato organizou em \u00e1lbuns fotogr\u00e1ficos a vida de Jacky: imagens dos passeios de bicicletas no \u00e1lbum Bicicletas; as imagens de formaturas no \u00e1lbum Formatura; e, finalmente, as imagens de selfies com os amigos no \u00e1lbum GORILAS. \u00c9 isso mesmo: GORILAS! Jacky Alcin\u00e9 e os amigos retratados s\u00e3o pessoas negras. As t\u00e9cnicas de reconhecimento facial (machine learning) do Google Photos n\u00e3o montaram um \u00e1lbum AMIGOS ou MOMENTOS FELIZES ao mapearem o sorriso no rosto de Jackie e seus amigos, elas montaram o \u00e1lbum GORILAS. Esta situa\u00e7\u00e3o desencadeou uma controv\u00e9rsia que reproduzimos brevemente o quadro a seguir:<\/p>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/googleRacista.png\" alt=\"Google Racista\" width=\"547\" height=\"584\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2915\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/googleRacista.png 547w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/googleRacista-281x300.png 281w\" sizes=\"auto, (max-width: 547px) 100vw, 547px\" \/><br \/>\nFigura 3: Gorilas \u00e9 o r\u00f3tulo do \u00e1lbum de Jacky Alcin\u00e9 no Google Photos<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/twitter.com\/jackyalcine\/status\/615332439053967360\">Twitter<\/a>.<\/figcaption><\/figure>\n<p><!-- QUADRO COMUM --><\/p>\n<section class=\"quadro\">\n<h5>Desabafo de Jacky Alcin\u00e9<\/h5>\n<p>Jacky Alcin\u00e9 desabafou sua indigna\u00e7\u00e3o pelo <a href=\"https:\/\/twitter.com\/jackyalcine\/status\/615332439053967360\">Twitter<\/a>, desencadeando em poucos dias mais de mil <em>re-tweets<\/em> e uma discuss\u00e3o online fervorosa.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/verilymary\/status\/615331919840935936\">Verily Mary<\/a>, uma mulher negra, lamentou o ocorrido: \u201cisso \u00e9 completamente inaceit\u00e1vel e muito baixo. Sinto muito, voc\u00ea ter que se deparar com uma ignor\u00e2ncia t\u00e3o dolorosa\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/twitter.com\/Alexisateo\">Alexisateo<\/a> que se identifica em seu perfil do twitter como um ate\u00edsta, secular, liberal cl\u00e1ssico e pr\u00f3-liberdade de express\u00e3o, entrou no debate com o seguinte coment\u00e1rio: \u201cpara ser justo, n\u00e3o foi uma quest\u00e3o de ignor\u00e2ncia humana, foi um problema com o software de reconhecimento [facial]\u201d, coment\u00e1rio que foi veementemente rebatido por Jacky: \u201c\u00e9 SIM uma quest\u00e3o de ignor\u00e2ncia humana. Voc\u00ea est\u00e1 me dizendo que um software que pretende selecionar e agrupar rostos n\u00e3o conseguir\u00e1 classificar os rostos de pessoas negras?\u201d.<\/p>\n<p>Alexisateo contra-argumentou dizendo que esse \u201cmesmo software tamb\u00e9m marcou pessoas brancas como c\u00e3es e focas no passado\u201d, incluindo como refer\u00eancia uma mat\u00e9ria publicada pelo canal oficial da <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/mzhang\/2015\/07\/01\/google-photos-tags-two-african-americans-as-gorillas-through-facial-recognition-software\/\">Forbes<\/a>. <\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/mzhang\/2015\/07\/01\/google-photos-tags-two-african-americans-as-gorillas-through-facial-recognition-software\/\">mat\u00e9ria<\/a> citada por Alexisateo foi publicada tr\u00eas dias ap\u00f3s o incidente, trazendo a seguinte chamada como t\u00edtulo: \u201cGoogle Photos etiqueta dois afro-americanos como gorilas atrav\u00e9s de um software de reconhecimento facial\u201d. Assinada por <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/mzhang\/#7f94c656d7b4\">Maggie Zhang<\/a>, uma mulher de ascend\u00eancia oriental, essa mat\u00e9ria articulou-se em torno de dois prop\u00f3sitos: mostrar a prontid\u00e3o da Google em desculpar-se e tratar do problema, e mitigar os efeitos \u201ccolaterais\u201d produzidos no desenvolvimento de inova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Maggie Zhang, que se considera uma pessoa que escreve sobre tecnologia, inova\u00e7\u00e3o e startups, destacou a forma solid\u00e1ria com que Yonatan Zunger, CAS (Chief Architect of Social) da Google, tratou a quest\u00e3o, apresentando cita\u00e7\u00f5es de suas postagens endere\u00e7adas ao <a href=\"https:\/\/twitter.com\/yonatanzunger\/status\/615355996114804737\">tweet<\/a> de Jacky: \u201cn\u00e3o \u00e9 assim que se determina um p\u00fablico-alvo no mercado [respondendo a uma pergunta de Jacky Alcin\u00e9]. O que aconteceu est\u00e1 100% errado. Estamos consternados e realmente sentimos pelo ocorrido. Ainda h\u00e1 muito trabalho a ser feito para evitar que esse tipo de erro aconte\u00e7a no futuro. Aprendizado de m\u00e1quina (Machine Learning) \u00e9 dif\u00edcil\u201d.<br \/>\n<\/section>\n<p>Resumo da \u00f3pera: um servi\u00e7o aparentemente inofensivo se tornou uma ofensa grave para um de seus usu\u00e1rios e um constrangimento enorme para uma das maiores empresa do planeta. Para saber mais, sugerimos a leitura da mat\u00e9ria publicada no El Pais: &#8220;<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/01\/14\/tecnologia\/1515955554_803955.html\">Google conserta seu algoritmo \u201cracista\u201d apagando os gorilas<\/a>&#8221;<\/p>\n<p><!-- QUADRO DEBATE --><\/p>\n<section class=\"quadro debate\" id=\"softwareracista\">\n<h5>DEBATE: Um software racista. Que locu\u00e7\u00e3o mais estranha \u00e9 essa que qualifica um software com um atributo humano?<\/h5>\n<p>\u201cPara ser justo, n\u00e3o foi uma quest\u00e3o de ignor\u00e2ncia humana, foi um problema com o software de reconhecimento\u201d. A frase de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Alexisateo\">Alexisateo<\/a> na discuss\u00e3o sobre o \u00e1lbum GORILAS coloca em quest\u00e3o as supostas neutralidade e universalidade das tecnologias. Se as tecnologias digitais fossem neutras e universais a responsabilidade por um equ\u00edvoco ou falha seria naturalmente atribu\u00edda aos humanos (\u201cerrar \u00e9 humano\u201d). Mas Alexisateo acusou a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Organize um debate imaginando dois grupos. Um grupo encena a atua\u00e7\u00e3o de Yonathan Zunger, alto executivo de arquitetura social da Google, convocado para estabelecer uma concilia\u00e7\u00e3o entre Google Photos, usu\u00e1rios e racismo algor\u00edtmico. Outro grupo encena a atua\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios que reagem \u00e0 a\u00e7\u00e3o racista. Registre o debate por texto, v\u00eddeo, slides, ou qualquer outro meio que permita a divulga\u00e7\u00e3o e consulta. Analisando os registros, reflita: quando o software falha, de quem \u00e9 a culpa? Do implementador? De quem comercializa? De quem usa? Das plataformas em que roda? Da tecnologia utilizada?<\/p>\n<p>Observe que as respostas transitam indistintamente tanto pelo dom\u00ednio que dir\u00edamos \u201ct\u00e9cnico\u201d como tamb\u00e9m pelo \u201csocial\u201d. Observe tamb\u00e9m que, a cada ocorr\u00eancia deste incidente, o software j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 mais o mesmo. Isto prop\u00f5e que \u00e9 mais produtivo pensar no artefato como um processo, e n\u00e3o como um produto acabado.<br \/>\n<\/section>\n<p>\u201cUm software racista\u201d. Que locu\u00e7\u00e3o mais estranha! \u00c9 dif\u00edcil imaginar um c\u00f3digo de computador que discrimina pessoas. Seria poss\u00edvel software racista? Na cultura ocidental e moderna \u00e9 comum considerarmos a tecnoci\u00eancia se como se fosse um campo neutro e universal, como se fosse independente das coisas da vida. Sob essas considera\u00e7\u00f5es, a resposta seria simples direta: n\u00e3o existe tecnologia racista. O racismo seria uma caracter\u00edstica tipicamente humana, algo cultural, algo que pertenceria \u00e0s pessoas, nada teria a ver com a ci\u00eancia. De fato, o termo \u201csoftware racista\u201d n\u00e3o se sustenta no paradigma da inform\u00e1tica apartada da sociedade, pois alude a uma situa\u00e7\u00e3o onde o t\u00e9cnico est\u00e1 misturado com o social.<\/p>\n<p>Contudo, poder\u00edamos propor uma resposta menos imparcial: \u201cum software produzido nos EUA \u00e9 racista porque um dos efeitos de seu uso criou uma situa\u00e7\u00e3o de discrimina\u00e7\u00e3o racial\u201d (inform\u00e1tica \u00e9 sociedade). Transformar um adjetivo em predicado \u00e9 algo muito radical. No caso Google Photos e o algum rotulado GORILAS, \u00e9 muito dif\u00edcil escapar desse predicado. Quando uma <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Racismo_no_futebol\">torcida, das arquibancadas, chama um jogador de futebol negro de macaco ou atira-lhe bananas<\/a>, certamente eles s\u00e3o torcedores racistas. Inquestion\u00e1vel. Por que ent\u00e3o um software que classifica duas pessoas negras como gorilas n\u00e3o pode ser considerado um software racista? Se foi uma falha humana ou se a tecnologia \u201cainda\u201d n\u00e3o atingiu um grau suficiente de maturidade, ou qualquer que seja a justificativa apoiada na neutralidade da t\u00e9cnica, o fato \u00e9 que o software rotulou pessoas negras como gorilas. E vejam s\u00f3 que interessante: os termos tecnologia e maturidade juntos.<\/p>\n<p><!-- QUADRO DEBATE --><\/p>\n<section class=\"quadro debate\" id=\"racismo\">\n<h5>DEBATE: Algoritmos racistas ou sociedade racista?<\/h5>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/racismo.png\" alt=\"racismo\" width=\"318\" height=\"363\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2916\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/racismo.png 318w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/racismo-263x300.png 263w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><figcaption>Fonte: Kairos Diversity Recognition (#DiveristyRecognition)<\/figcaption><\/figure>\n<p>O teste \u201cDiversity Recognition\u201d, proposto pela <a href=\"http:\/\/www.kairos.com\/\">Kairos<\/a>, empresa especializada nesse ramo, se propunha a fazer um \u201creconhecimento da diversidade\u201d \u00e9tnica das pessoas a partir de uma imagem facial. Ao envio de uma foto de rosto, uma <em>selfie<\/em>, por exemplo, o <em>software<\/em> devolveria em poucos segundos os percentuais correspondentes a uma estimativa de etnia. Voc\u00ea faria esse teste? N\u00e3o se sabe o que a Kairos fazia com as 10 milh\u00f5es <em>selfies<\/em> registradas em sua base, mas por motivos de privacidade e seguran\u00e7a, o teste est\u00e1 hoje desativado. Brian Brackeen, CEO (Chief Executive Office) da empresa, uma pessoa negra, declarou estar convencido <a href=\"https:\/\/www.kairos.com\/blog\/we-ve-retired-our-diversity-recognition-app-here-s-why\">de que os classificadores de etnia que dispomos (preto, branco, asi\u00e1tico, hisp\u00e2nico, &#8220;outros&#8221;) n\u00e3o representam a diversidade e n\u00e3o acompanham a r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o da cultura e da ra\u00e7a<\/a>. <\/p>\n<p>Em junho de 2018, Brian Brackeen publicou um artigo afirmando <a href=\"https:\/\/techcrunch.com\/2018\/06\/25\/facial-recognition-software-is-not-ready-for-use-by-law-enforcement\/\">sua oposi\u00e7\u00e3o ao uso da tecnologia de reconhecimento facial para uso policial<\/a>. Por\u00e9m seu argumento inocenta o algoritmo de qualquer racismo. Para ele o racismo decorre da baixa quantidade de testes com pessoas negras: <\/p>\n<p class=\"blockquote\">To be truly effective, the algorithms powering facial recognition software require a massive amount of information. The more images of people of color it sees, the more likely it is to properly identify them. The problem is, existing software has not been exposed to enough images of people of color to be confidently relied upon to identify them. (<a href=\"https:\/\/techcrunch.com\/2018\/06\/25\/facial-recognition-software-is-not-ready-for-use-by-law-enforcement\/\">BRACKEEN, 2018<\/a>)<\/p>\n<p>Dessa forma, Brian Brackeen isola o racismo na base de dados, e n\u00e3o no algoritmo, o que equivale a dizer que para ele, a tecnologia (o algoritmo) \u00e9 neutra.<\/p>\n<p>Sob a luz deste exemplo, discuta o conceito de neutralidade e universalidade da tecnologia. Voc\u00ea concorda com Brian Brackeen que a tecnologia, embora seja pensada e constru\u00edda por uma sociedade racista, n\u00e3o carrega em si nenhum tra\u00e7o desse racismo (neutralidade)?<\/p>\n<p>Voc\u00ea considera que a tecnologia age sempre da mesma maneira, aqui e na China, hoje ou no futuro, independentemente do lugar e do momento hist\u00f3rico em que foi ou ser\u00e1 posta em opera\u00e7\u00e3o (universalidade)?<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 6 --><\/p>\n<h2 id=\"s6\">6. Vidas, pensamentos, matem\u00e1ticas e m\u00e1quinas: a constru\u00e7\u00e3o do computador<\/h2>\n<p>Muitas quest\u00f5es que se fazem vis\u00edveis nos exemplos anteriores se mostram tamb\u00e9m em diferentes vers\u00f5es em outros diversos sistemas que fazem parte do nosso cotidiano, como estamos vendo ao longo desse cap\u00edtulo. Podemos perceber claramente que estas quest\u00f5es se estabelecem num espa\u00e7o de encontro entre as t\u00e9cnicas e as sociedades, tornando improdutivo separar o que seria do escopo das t\u00e9cnicas ou das sociedades.<\/p>\n<p>Por muito tempo trabalhamos com o conceito de \u201calgoritmo\u201d como um mapeamento exato e preciso entre a entrada e a sa\u00edda. A partir deste conceito as categoriza\u00e7\u00f5es modernas separam a m\u00e1quina do humano e a partir dessa separa\u00e7\u00e3o identificam-se os problemas n\u00e3o comput\u00e1veis. Mas o percurso de constru\u00e7\u00e3o do conceito de algoritmo mostra que, ainda antecedendo a inven\u00e7\u00e3o dos computadores, os cientistas tinham clareza da impossibilidade de matematizar este conceito, ou seja, de tra\u00e7ar uma linha exata entre a m\u00e1quina e o humano.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1930, cerca de quinze anos antes da constru\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/ENIAC\">ENIAC<\/a>, o jovem matem\u00e1tico Kurt G\u00f6del mostrou \u00e0 comunidade matem\u00e1tica a impossibilidade de um sistema formal suficientemente expressivo ser, ao mesmo tempo, completo e consistente (<a href=\"#GODEL1931\">G\u00d6DEL, 1931<\/a>). Isto significa que se um sistema matem\u00e1tico for capaz de abrigar a aritm\u00e9tica, ele alcan\u00e7ar\u00e1 tamb\u00e9m senten\u00e7as paradoxais como \u201cesta senten\u00e7a n\u00e3o tem prova\u201d. Observe que \u00e9 paradoxal dentro do pressuposto da \u00e9poca de que todas as verdades matem\u00e1ticas poderiam ser provadas. Nessa condi\u00e7\u00e3o, se a senten\u00e7a \u00e9 verdadeira, ent\u00e3o ela tem prova. Mas o que ela afirma de si pr\u00f3pria \u00e9 que n\u00e3o tem prova. Por outro lado, supondo a senten\u00e7a falsa, n\u00e3o seria verdade o que ela diz de si pr\u00f3pria, ou seja, ela tem prova, sendo, portanto, verdadeira. Eis o paradoxo.<\/p>\n<p>Frustrada a expectativa da \u00e9poca de que haveria um sistema formal capaz de abra\u00e7ar a totalidade da matem\u00e1tica, restou aos matem\u00e1ticos o desafio de dominar a fronteira entre o que se poderia e o que n\u00e3o se poderia expressar na linguagem matem\u00e1tica. Por\u00e9m, j\u00e1 era claro para eles que, tratando-se de quest\u00f5es da formaliza\u00e7\u00e3o do pensamento, a matem\u00e1tica reivindica a coparticipa\u00e7\u00e3o dos processos informais. Alan Turing deixou isso claro: \u201cTodos os argumentos que podem ser dados devem ser, fundamentalmente, apelos \u00e0 intui\u00e7\u00e3o e, por esta raz\u00e3o, bastante insatisfat\u00f3rios matematicamente\u201d (<a href=\"#TURING1936\">TURING, 1936<\/a>, p.249).<\/p>\n<p>Convencido disto, Turing se p\u00f4s a observar cuidadosamente os atos humanos no processo de computar (calcular), e da\u00ed, descreveu o seu \u201ccomputador\u201d, ou seja, o humano no ato de computar (<a href=\"#SOARE1996\">SOARE, 1996<\/a>, p.9). Desta observa\u00e7\u00e3o, ele prop\u00f4s uma descri\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica das a\u00e7\u00f5es deste humano \u201ccomputador\u201d, definindo o que hoje chamamos de \u201cM\u00e1quina de Turing\u201d, o modelo abstrato que viria a se materializar no computador. Dois anos mais tarde, em sua tese de doutorado (<a href=\"#TURING1938\">TURING, 1938<\/a>), prop\u00f4s um sistema \u201cmatem\u00e1tico n\u00e3o totalmente formal\u201d: tinha um or\u00e1culo como componente. Este or\u00e1culo tinha a fun\u00e7\u00e3o de fornecer uma resposta precisa para um problema que n\u00e3o poderia ser resolvido matematicamente. Turing explicou: \u201cVamos supor que dispomos de algum meio n\u00e3o especificado para resolver problemas de teoria dos n\u00fameros, uma esp\u00e9cie de or\u00e1culo, por assim dizer. N\u00e3o vamos mais longe na natureza deste or\u00e1culo al\u00e9m de dizer que n\u00e3o pode ser uma m\u00e1quina\u201d. (<a href=\"#TURING1938\">TURING, 1938<\/a>, p.18)<\/p>\n<p>Ele inaugurou uma matem\u00e1tica diferente, que interage com o n\u00e3o-maqu\u00ednico (o or\u00e1culo) para tornar poss\u00edvel a opera\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de n\u00e3o computabilidade. Com isso, Alan Turing n\u00e3o somente forneceu fundamentos te\u00f3ricos para uma m\u00e1quina que ainda n\u00e3o existia, como tamb\u00e9m anteviu uma computa\u00e7\u00e3o h\u00edbrida que se faz not\u00e1vel em nosso tempo. Na falta do or\u00e1culo, hoje vemos que, diante da percep\u00e7\u00e3o de que certas tarefas s\u00e3o imposs\u00edveis (ou invi\u00e1veis) para a m\u00e1quina, os sistemas pedem ajuda ao humano. Parte do processamento fica a cargo de milh\u00f5es corpos e mentes que se encontram conectados e distribu\u00eddos pelo mundo. Como j\u00e1 foi aqui comentado, sobre <a href=\"#ComputacaoHumana\">Computa\u00e7\u00e3o Humana<\/a>, n\u00e3o nos incomoda o fato de termos um marcapasso, ou uma pr\u00f3tese, ou seja, de carregarmos em nossos corpos pe\u00e7as tecnol\u00f3gicas, porque nessa situa\u00e7\u00e3o ainda temos a sensa\u00e7\u00e3o de que o controle racional est\u00e1 em nossas mentes. Mas agora, precisamos nos acostumar com a ideia de que somos n\u00f3s as pe\u00e7as. Certos procedimentos, rotinas, tarefas f\u00edsicas necess\u00e1rias para a conclus\u00e3o de um prop\u00f3sito, somos n\u00f3s que realizamos. Somos, portanto, as partes de um sistema que executam tarefa bastante espec\u00edfica, sem saber para qual prop\u00f3sito estamos colaborando.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que, mesmo aderindo a uma comunidade que trabalhava com conceitos essencialmente formais (matem\u00e1ticos), Turing tenha atentado para a observa\u00e7\u00e3o do humano. O bi\u00f3grafo <a href=\"https:\/\/www.turing.org.uk\/publications\/dnb.html\">Andrew Hodges<\/a> considera que a proposta do humano \u201ccomputador\u201d de Turing tenha rela\u00e7\u00e3o com a morte precoce de seu companheiro, como uma tentativa de reviver os elaborados modos de pensamento que exercitavam juntos em brincadeiras matem\u00e1ticas. A presen\u00e7a do humano passou a compor a matem\u00e1tica de Turing, sendo a engenhosidade humana um ponto marcante de sua obra.<\/p>\n<p>Em 1950, portanto depois da inven\u00e7\u00e3o do computador, a quest\u00e3o humano-m\u00e1quina ainda se mostrava presente na obra de Turing. Ele criou um jogo que denominou \u201cjogo da imita\u00e7\u00e3o\u201d, hoje conhecido como o Teste de Turing. Seu objetivo era responder \u00e0 pergunta \u201cAs m\u00e1quinas podem pensar?\u201d. O jogo consistia em alocar em dois quartos separados um homem (a quem Turing rotulava com A) e uma mulher (a quem rotulava com B). Haveria uma terceira pessoa que seria o interrogador. Este deveria enviar perguntas datilografadas a um dos outros participantes de modo a descobrir se este era o homem ou a mulher. Enquanto um participante responderia tentando despistar o interrogador, o outro responderia no sentido de auxili\u00e1-lo. A quest\u00e3o da capacidade da m\u00e1quina em simular o pensamento humano foi introduzida da seguinte forma:<\/p>\n<p class=\"blockquote\">O que acontecer\u00e1 quando uma m\u00e1quina assumir a parte de A neste jogo? Ser\u00e1 que o interrogador ir\u00e1 decidir t\u00e3o erradamente quando jogado assim, quanto quando jogado entre um homem e uma mulher? Essas perguntas substituem nossa original, \u2018As m\u00e1quinas podem pensar?\u2019 (<a href=\"#TURING1950\">TURING, 1950<\/a>, p.434).<\/p>\n<p>Vemos novamente uma proposta h\u00edbrida, uma aposta de que a mente humana se confundiria com computadores. Turing prossegue apresentando algumas estimativas que estabelecem uns poucos par\u00e2metros para o que hoje chamamos de \u201cTeste de Turing\u201d:<\/p>\n<p class=\"blockquote\">Eu acredito que em cerca de cinquenta anos ser\u00e1 poss\u00edvel programar computadores, com uma capacidade de armazenamento de cerca de 109, para faz\u00ea-los jogar o jogo da imita\u00e7\u00e3o t\u00e3o bem que um interrogador m\u00e9dio n\u00e3o ter\u00e1 mais de 70 por cento de chances de fazer a identifica\u00e7\u00e3o certa depois de cinco minutos de interrogat\u00f3rio. (<a href=\"#TURING1950\">TURING, 1950<\/a>, p.442)<\/p>\n<p>Misturando vidas, pensamentos, matem\u00e1ticas e m\u00e1quinas, Alan Turing foi porta voz de uma proposta h\u00edbrida, que contemporizou jogo e ci\u00eancia, matem\u00e1tica e intui\u00e7\u00e3o, formal e informal, conjecturas e provas, humano e maqu\u00ednico na concep\u00e7\u00e3o do que viria a constituir a base dos sistemas computacionais que usamos hoje.<\/p>\n<p><!-- QUADRO ATIVIDADE --><\/p>\n<section class=\"quadro atividade\" id=\"maquinaspensam\">\n<h5>ATIVIDADE: ATIVIDADE: As m\u00e1quinas pensam?<\/h5>\n<p class=\"blockquote\">A pergunta original, \u2018As m\u00e1quinas podem pensar?\u2019 eu acredito ser muito sem sentido para merecer discuss\u00e3o. (&#8230;) Acredito ainda que n\u00e3o h\u00e1 objetivo \u00fatil ao ocultar essas cren\u00e7as. A vis\u00e3o popular de que os cientistas prosseguem inexoravelmente do fato bem estabelecido para um fato bem estabelecido sem influ\u00eancia de nenhuma conjectura melhor apurada est\u00e1 bastante equivocada. (<a href=\"#TURING1950\">TURING, 1950<\/a>, p. 442)<\/p>\n<p>Turing nos leva a pensar sobre a neutralidade e universalidade dos fatos cient\u00edficos. No artigo de 1950, ele deixa claro que sua proposta cientifica justifica-se numa cren\u00e7a, e estende isso ao trabalho dos cientistas em geral. Ele n\u00e3o pareceu estar incomodado com a <a href=\"http:\/\/www.hcte.ufrj.br\/downloads\/sh\/sh7\/SH\/trabalhos orais completos\/OS-CIENTISTAS-TEM-CONHECIMENTOS-OS-OUTROS-TEM-CRENCAS.pdf\">diferen\u00e7a entre cren\u00e7a e fato cient\u00edfico<\/a> (<a href=\"#MARQUES2014\">MARQUES, 2014<\/a>). <\/p>\n<p>Bruno Latour, fil\u00f3sofo do nosso tempo, insiste, assim como Turing, que o fato cient\u00edfico \u00e9 um passo de uma cadeia de intera\u00e7\u00f5es: rumores, opini\u00f5es, pareceres, disputas, proposi\u00e7\u00f5es, descoberta e fato (<a href=\"#LATOUR2016\">LATOUR, 2016<\/a>, p.82). Sendo produzida por humanos em sua coletividade, a ci\u00eancia incorpora em si os tra\u00e7os desta mesma humanidade, seus coletivos e seu tempo. Portanto, a objetividade e a exatid\u00e3o do fato cient\u00edfico s\u00e3o tanto maiores quanto for a rede de intera\u00e7\u00f5es que o cientista elenca, e o crit\u00e9rio de certeza e verdade tamb\u00e9m se estabelece nesta rede, podendo ser verificado e confirmado pelo rastreamento que o cientista deixa aparente. Hoje, os instrumentos de que dispomos na web, nos permitem rastrear artigos cient\u00edficos com facilidade.<\/p>\n<p>(1) O pequeno v\u00eddeo apresentado a seguir, produzido pela <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/user\/TVSenadoOficial\">TV Senado<\/a> em 2018 e divulgado no contexto da pandemia de COVID-17 em 2020, faz uma reconstru\u00e7\u00e3o dos desafios encontrados por Oswaldo Cruz na implanta\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica sanitarista para combater doen\u00e7as como peste bub\u00f4nica e febre amarela. Tomando essa narrativa como ponto de partida, fa\u00e7a o registro do processo enfrentado por Oswaldo Cruz para convencer sobre a efic\u00e1cia da vacina. Enrique\u00e7a essa hist\u00f3ria atrav\u00e9s de pesquisas na Internet. Observe o percurso de convencimento que se faz necess\u00e1rio para a consolida\u00e7\u00e3o de um fato cient\u00edfico. A hist\u00f3ria da vacina mostra uma rede de agenciamento que vai muito al\u00e9m da comunidade de cientistas, o que deixa em evid\u00eancia que fato cient\u00edfico, bem como artefato tecnol\u00f3gico t\u00eam pol\u00edtica.<\/p>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hist\u00f3rias do Brasil - A Revolta da Vacina\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6i6v9f_aWjg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nHist\u00f3rias do Brasil &#8211; A Revolta da Vacina<figcaption>Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6i6v9f_aWjg\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6i6v9f_aWjg<\/a><\/figcaption><\/figure>\n<p>(2)  Nos \u00faltimos anos temos visto no Brasil o fortalecimento de argumenta\u00e7\u00f5es questionando o rigor da ci\u00eancia e a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica brasileira. Essas argumenta\u00e7\u00f5es encontraram espa\u00e7o nas pol\u00edticas nacionais de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, ocasionando o desmonte da rede de produ\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia. Por exemplo,  as universidades p\u00fablicas que, no Brasil, s\u00e3o pilar fundamental na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, foram apontadas como centros de produ\u00e7\u00e3o de \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/educacao\/2019\/05\/a-balburdia-de-weintraub.shtml\">balb\u00fardia<\/a>\u201d.  Considerando este cen\u00e1rio, fa\u00e7a o levantamento dos atores que lhe parecem relevantes na discuss\u00e3o sobre a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Brasil. Dizemos \u201catores\u201d de forma ampla, n\u00e3o necessariamente para designar humanos. Por exemplo, um reposit\u00f3rio de artigos cient\u00edficos, um software de busca, uma sociedade cient\u00edfica como a <a href=\"http:\/\/portal.sbpcnet.org.br\/\">SBPC<\/a> ou a <a href=\"http:\/\/www.esocite.org.br\/\">ESOCITE<\/a> podem ser atores relevantes se voc\u00ea perceber as a\u00e7\u00f5es desempenhadas por eles e os relacionamentos que eles efetuam. Execute uma tarefa de cart\u00f3grafo: colecione registros (reportagens, artigos, mensagens) que demonstrem a atua\u00e7\u00e3o desses atores. A partir destes registros, v\u00e1 mapeando os relacionamentos entre os atores. Quanto mais amplo e heterog\u00eaneo for o seu trabalho de levantamento, mais acurada e ser\u00e1 a sua rede.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O 7 --><\/p>\n<h2 id=\"s7\">7. Conclus\u00e3o<\/h2>\n<p>Ao longo desse texto n\u00f3s recorremos algumas vezes ao modo de viver dos povos origin\u00e1rios do Brasil porque eles apresentam uma imensid\u00e3o de exemplos de compreens\u00f5es de mundo que foram constru\u00eddas e sobrevivem de forma independente das categorias modernas (divis\u00e3o em \u00e1reas de conhecimento, disciplinas etc.) e das prerrogativas modernas de constru\u00e7\u00e3o do saber (neutralidade, universalidade, dentre outras). Essas vis\u00f5es de mundo nos ajudam a escapulir de uma repeti\u00e7\u00e3o reiterada de agir e fazer ci\u00eancia que fortalece a perspectiva \u00fanica hegem\u00f4nica e jogam na invisibilidade qualquer outra maneira de pensar. Observe que n\u00e3o estamos afirmando o descr\u00e9dito e a rejei\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, como fazem as manifesta\u00e7\u00f5es negacionistas que fecham os olhos \u00e0s evid\u00eancias, desde as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas \u00e0 forma arredondada da Terra. Seguimos a proposi\u00e7\u00e3o de que uma outra ci\u00eancia \u00e9 poss\u00edvel (<a href=\"#STENGERS2018\">STENGERS, 2018<\/a>) em que todo o processo de racionaliza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (da observa\u00e7\u00e3o, formula\u00e7\u00e3o de hip\u00f3tese \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do experimento e valida\u00e7\u00e3o), bem como as no\u00e7\u00f5es de verdade, objetividade, certeza, rigor sejam amparadas em perspectivas historicamente situadas. Isto significa admitir uma compreens\u00e3o p\u00fablica da ci\u00eancia, ou seja, admitir que seja entendida, rastreada, acompanhada e regulada por n\u00e3o-especialistas. Tanto quanto a ci\u00eancia, tamb\u00e9m queremos argumentar que uma outra educa\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, e para n\u00e3o sucumbir nas pr\u00e1ticas educativas autorit\u00e1rias \u00e0s quais fomos submetidos \u00e9 necess\u00e1rio termos em mente <a href=\"#objetivosEducacionais\"><em>n\u00e3o objetivos educacionais<\/em><\/a>, mundos que n\u00e3o queremos repetir. Esse cap\u00edtulo, amparado por n\u00e3o-objetivos, prop\u00f5e uma compreens\u00e3o da inform\u00e1tica-sociedade n\u00e3o-neutra, n\u00e3o-universal, n\u00e3o-pura, n\u00e3o-linear, n\u00e3o-autorit\u00e1ria. O que teremos depois de tantos n\u00e3os? Uma compreens\u00e3o do mundo como uma rede din\u00e2mica, que acolhe e gosta das diferen\u00e7as, que se ajusta e acompanha a vida. Portanto, n\u00e3o apresentamos conclus\u00f5es carregadas de positivismo que possam levar a proposi\u00e7\u00f5es gerais. No lugar disso, vamos como <a href=\"#BOAL\">Boal<\/a>: cabe\u00e7a nas alturas, porque arte, liberdade de cria\u00e7\u00e3o, e respeito \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios, p\u00e9s no ch\u00e3o, para n\u00e3o perder de vista os rastros que amparam as nossas falas, e m\u00e3os \u00e0 obra, em nosso tempo, em nossa vida, tecendo nossas redes.<\/p>\n<p><!-- QUADRO DEBATE --><\/p>\n<section class=\"quadro debate\" id=\"pandemia\">\n<h5>DEBATE: Em tempos de pandemia<\/h5>\n<p>Para evitar o contato com a radia\u00e7\u00e3o consequente do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Acidente_nuclear_de_Chernobil\">acidente nuclear de Chernobil<\/a> em 1986, o governo Ucraniano decretou a cria\u00e7\u00e3o uma zona de exclus\u00e3o, uma \u00e1rea esvaziada de humanos, em um raio de 30 km em torno do local do acidente. Instituiu-se um \u201cvazio de vida\u201d, j\u00e1 que fauna e flora tamb\u00e9m foram destru\u00eddas pela radia\u00e7\u00e3o. Estimou-se que o local s\u00f3 estaria seguro para a presen\u00e7a humana 20 mil anos ap\u00f3s o acidente. Mas, espantosamente ap\u00f3s 30 anos, foi constatada a presen\u00e7a de javalis, lobos, alces, veados, ursos, e a paisagem de florestas e prados ressurgiu. Levando em conta as imensas propor\u00e7\u00f5es dos acidentes naturais causados pela ocupa\u00e7\u00e3o humana (destrui\u00e7\u00e3o da camada de oz\u00f4nio, descongelamento das geleiras, destrui\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica, etc), a reconstitui\u00e7\u00e3o da vida em Chernobil levantou a hip\u00f3tese de que <a href=\"https:\/\/www.telegraph.co.uk\/news\/2016\/04\/23\/wildlife-returns-to-radioactive-wasteland-of-chernobyl\/\">a presen\u00e7a humana \u00e9 mais nociva do que a radia\u00e7\u00e3o<\/a>. Hoje, o isolamento social necess\u00e1rio ao controle da pandemia COVID19, parece tamb\u00e9m confirmar esta hip\u00f3tese. Temos nos surpreendido <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VyJzjo5fsrQ\">com imagens onde animais que n\u00e3o s\u00e3o usualmente vistos tomam os lugares das cidades esvaziadas<\/a>.<\/p>\n<p>Seria a presen\u00e7a humana nociva ao meio ambiente? Os povos que j\u00e1 habitavam o Brasil antes da invas\u00e3o do colonizador n\u00e3o confirmam essa hip\u00f3tese. Em manifesta\u00e7\u00e3o na Assembl\u00e9ia Constituinte, em 1987, Ailton Krenak deixou claro: <\/p>\n<p><!-- FIGURA --><\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ailton Krenak - Discurso na Assembleia Constituinte\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TYICwl6HAKQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\nAilton Krenak &#8211; Discurso na Assembleia Constituinte<figcaption>Fonte: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TYICwl6HAKQ<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"blockquote\">O povo ind\u00edgena tem um jeito de pensar. Tem um jeito de viver. Tem condi\u00e7\u00f5es fundamentais para a sua exist\u00eancia e para a manifesta\u00e7\u00e3o da sua tradi\u00e7\u00e3o, da sua vida, da sua cultura, que n\u00e3o coloca em risco e nunca colocaram a exist\u00eancia sequer dos animais que vivem ao redor das \u00e1reas ind\u00edgenas, quanto mais dos seres humanos. (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TYICwl6HAKQ\">KRENAK, 2019<\/a>, 5 min 40 seg)<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de que o ser humano \u00e9 nocivo ao meio ambiente s\u00f3 se sustenta sob a narrativa hegem\u00f4nica, ou seja, o pressuposto universalista de que qualquer ser vivo merecedor do adjetivo \u201chumano\u201d vive sob as mesmas condi\u00e7\u00f5es produtivistas e consumistas da sociedade moderna.<\/p>\n<p>1) Em outra entrevista, Krenak fala da concep\u00e7\u00e3o de mundo como um organismo vivo, inteligente, o que, no ambiente cient\u00edfico se chama Teoria de Gaia. Ele conta que as pesquisas cient\u00edficas embasadas nessa teoria foram silenciadas na d\u00e9cada de 1970 sob a acusa\u00e7\u00e3o de rejeitarem o evolucionismo darwinista, de modo que no final da d\u00e9cada de 1990, j\u00e1 n\u00e3o havia mais nenhuma pesquisa nesta linha que fosse financiada. Mas,<\/p>\n<p class=\"blockquote\">agora, nos \u00faltimos digamos 5,6 anos pra c\u00e1 com o agravamento da crise clim\u00e1tica, com a quest\u00e3o do planeta fervendo, e com todas as evid\u00eancias, esses cientistas  come\u00e7aram a declinar da posi\u00e7\u00e3o c\u00e9tica deles e est\u00e3o querendo entender a Teoria de Gaia. Ora, a Teoria de Gaia \u00e9 pra explicar pra incr\u00e9dulos, porque quem j\u00e1 ouvia a voz das montanhas, dos rios e das florestas, n\u00e3o precisa de uma teoria sobre isso. Toda teoria \u00e9 o esfor\u00e7o de explicar pros cabe\u00e7as duras a realidade que eles n\u00e3o enxergam. (<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6XoRg3nj1Ws&#038;t=360s\">KRENAK, 2019<\/a>, 6 min 30 seg)<\/p>\n<p>A partir desta entrevista, concedida no momento da pandemia de COVID19, reflita sobre as intoler\u00e2ncias da ci\u00eancia hegem\u00f4nica em considerar explica\u00e7\u00f5es consideradas por ela como n\u00e3o cient\u00edficas, e como uma situa\u00e7\u00e3o de cat\u00e1strofe ou emerg\u00eancia obriga a reverter essa atitude.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O RESUMO --><\/p>\n<section>\n<h3 id=\"resumo\">Resumo<\/h3>\n<p>Estudar a inform\u00e1tica tomando como base em seus \u201cimpactos\u201d sobre a sociedade ou os \u201cimpactos\u201d da sociedade sobre a inform\u00e1tica pressup\u00f5e separar esses dom\u00ednios (inform\u00e1tica e sociedade) como se tivessem fronteiras bem definidas e arbitrar uma hierarquiza\u00e7\u00e3o onde um dom\u00ednio age sobre o outro. A implica\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica \u00e9 que os entrela\u00e7amentos entre eles s\u00e3o negligenciados. Din\u00e2mica, plasticidade, acelera\u00e7\u00e3o, efemeridade que percebemos nas configura\u00e7\u00f5es da sociedade com a inform\u00e1tica s\u00e3o descuidados. Propomos aqui uma abordagem onde inform\u00e1tica e sociedade s\u00e3o estudadas como um enredamento. Para isso, recusamos as no\u00e7\u00f5es de neutralidade e universalidade da Inform\u00e1tica atrav\u00e9s de uma narrativa dirigida por <em>n\u00e3o-objetivos<\/em>. Essa abordagem oferece possibilidades de contribui\u00e7\u00f5es efetivas \u00e0 compreens\u00e3o das configura\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas e \u00e9 o ponto de partida para o enfrentamento dos desafios que a inform\u00e1tica pretende superar na educa\u00e7\u00e3o ou na sociedade em geral.<br \/>\n<\/section>\n<p><!-- SE\u00c7\u00c3O LEITURAS --><\/p>\n<section id=\"leituras\">\n<h3>Leituras Recomendadas<\/h3>\n<section class=\"leitura_recomendada\"><!-- IN\u00cdCIO DO ITEM --><\/p>\n<section class=\"leitura_capa\"><a href=\"http:\/\/www.redesist.ie.ufrj.br\/images\/redesist_images\/livros\/IGEC\/Cap_8.pdf\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES.jpg\" alt=\"MARQUES\" width=\"1192\" height=\"1685\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2921\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES.jpg 1192w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES-212x300.jpg 212w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES-724x1024.jpg 724w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES-768x1086.jpg 768w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MARQUES-1087x1536.jpg 1087w\" sizes=\"auto, (max-width: 1192px) 100vw, 1192px\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"leitura_descricao\"><a href=\"http:\/\/www.redesist.ie.ufrj.br\/images\/redesist_images\/livros\/IGEC\/Cap_8.pdf\"><strong>Desmaterializa\u00e7\u00e3o e Trabalho<\/strong><\/a>(<a href=\"#MARQUES1999\">MARQUES, 1999<\/a>)<br \/>\nNeste texto, Ivan da Costa Marques refor\u00e7a o argumento de que a baixa participa\u00e7\u00e3o nas atividades de concep\u00e7\u00e3o, projeto e planejamento estabelece uma desvantagem comparativa para os brasileiros na reconfigura\u00e7\u00e3o das oportunidades de trabalho e de agregar valor nas novas cadeias produtivas mais informacionalizadas.<br \/>\n <\/section>\n<\/section>\n<p><!-- FIM DO ITEM --><\/p>\n<section class=\"leitura_recomendada\"><!-- IN\u00cdCIO DO ITEM --><\/p>\n<section class=\"leitura_capa\"><a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Ideias_para_adiar_o_fim_do_mundo_Nova_ed.html?id=urKXDwAAQBAJ&amp;printsec=frontcover&amp;source=kp_read_button&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q&amp;f=false\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/KRENAK.jpg\" alt=\"KRENAK\" width=\"318\" height=\"462\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2923\" srcset=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/KRENAK.jpg 318w, https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/KRENAK-206x300.jpg 206w\" sizes=\"auto, (max-width: 318px) 100vw, 318px\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"leitura_descricao\"><a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Ideias_para_adiar_o_fim_do_mundo_Nova_ed.html?id=urKXDwAAQBAJ&#038;printsec=frontcover&#038;source=kp_read_button&#038;redir_esc=y#v=onepage&#038;q&#038;f=false\"><strong>Ideias para adiar o fim do mundo<\/strong><\/a>(<a href=\"#KRENAK2019\">KRENAK, 2019<\/a>)<br \/>\nDesde o seu inesquec\u00edvel discurso na Assembleia Constituinte, e m 1987, quando pintou o rosto com a tinta preta do jenipapo para protestar contra o retrocesso na luta pelos direitos ind\u00edgenas, Ailton Krenak se destaca como um dos mais importantes pensadores brasileiros. Ouvi-lo \u00e9 mais urgente do que nunca.<br \/>\n<\/section>\n<\/section>\n<p><!-- FIM DO ITEM --><br \/>\n<\/section>\n<p>  <!-- SE\u00c7\u00c3O EXERC\u00cdCIOS --><\/p>\n<section id=\"exercicios\">\n<h3 id=\"exercicios\">Exerc\u00edcios<\/h3>\n<ol>\n<li><a href=\"#deepnude\">ATIVIDADE: Deep Nude, a representa\u00e7\u00e3o conforma a realidade<\/a>. Questionar a abordagem dos \u201cimpactos\u201d, que se estabelece sobre uma separa\u00e7\u00e3o de dom\u00ednios para impor a a\u00e7\u00e3o de um sobre o outro.<\/li>\n<li><a href=\"#solido\">DEBATE: Tudo que \u00e9 s\u00f3lido se desmancha nas nuvens da Google\u2026<\/a> Exercitar o conceito de rede (heterog\u00eanea, inst\u00e1vel) e o rastreamento e registro de informa\u00e7\u00f5es para formar bases para discuss\u00f5es e mapeamento de controv\u00e9rsias.<\/li>\n<li><a href=\"#softwareracista\">DEBATE: Um software racista<\/a>. Que locu\u00e7\u00e3o mais estranha \u00e9 essa que qualifica um software com um atributo humano? Perceber a imbrica\u00e7\u00e3o entre o que seria separado entre t\u00e9cnico e social e a impossibilidade de compreender ou agir sobre um independente do outro.<\/li>\n<li><a href=\"#racismo\">DEBATE: Algoritmos racistas ou sociedade racista?<\/a> Questionar a neutralidade e universalidade das tecnologias.<\/li>\n<li><a href=\"#maquinaspensam\">ATIVIDADE: As m\u00e1quinas pensam?<\/a> Questionar a neutralidade e universalidade da ci\u00eancia.<\/li>\n<li><a href=\"#pandemia\">DEBATE: Em tempos de pandemia<\/a>. Elaborar o car\u00e1ter pol\u00edtico das ci\u00eancias.<\/li>\n<\/ol>\n<\/section>\n<p>  <!-- SE\u00c7\u00c3O REFER\u00caNCIAS --><\/p>\n<section id=\"referencias\">\n<h3>Refer\u00eancias<\/h3>\n<p id=\"ALVES2003\">ALVES, Lynn; JAPIASSU, Ricardo; Hetkowski. <a href=\"http:\/\/www.comunidadesvirtuais.pro.br\/colaborativo\/\"><strong>Trabalho colaborativo na\/em rede<\/strong>: entrela\u00e7ando trilhas<\/a>. 2003.<\/p>\n<p id=\"AHN2004\">AHN, L., BLUM, M., LANGFORD, J. 2004, Telling Human and Computers apart. <strong>Communications of the ACM<\/strong> February 2004\/Vol. 47, No. 2 , 58-60.<\/p>\n<p id=\"AHN2004\">AHN, L. e DABBISH, L. Labeling images with a computer game. In <a href=\"https:\/\/dl.acm.org\/doi\/proceedings\/10.1145\/985692\">CHI &#8217;04: Proceedings of the SIGCHI Conference on Human Factors in Computing Systems<\/a>, pages 319\u2013326, 2004.<\/p>\n<p id=\"CAFEZEIRO2014\">CAFEZEIRO, I., GADELHA, C., CHAITIN, V., MARQUES, I., <a href=\"http:\/\/www.ic.uff.br\/isabel\/pdf\/HCI-2014-LNCS-final.pdf\">A knowledge-construction perspective on human computing, collaborative behavior and new trends in system interactions <strong>Lecture Notes in Computer Science<\/strong><\/a>, v. 8510, p. 58, 2014.<\/p>\n<p id=\"DESCARTES1989\">DESCARTES, R. <strong>Regras para a direc\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito<\/strong>. Edi\u00e7\u00f5es 70. Lisboa: Portugal. 1989.<\/p>\n<p id=\"LAW2011\">LAW, E., AHN, L. <strong>Human Computation<\/strong>. Morgan and Claypool publishers, 2011.<\/p>\n<p id=\"ELA2013\">ELA. Dire\u00e7\u00e3o: Spike Jonze. Annapurna pictures e Sony pictures, 2013, 2:06:05, COR. Digital.<\/p>\n<p id=\"FERREIRA2001\">FERREIRA, E. S. Racionalidade dos \u00cdndios Brasileiros. <strong>Scientific American \u2013 Brasil, Etnomatem\u00e1tica<\/strong>. Edi\u00e7\u00e3o Especial, N. 11,ISSN 1679-5229 pag 92, 2001.<\/p>\n<p id=\"FREIRE1984\">FREIRE, P. A m\u00e1quina est\u00e1 a servi\u00e7o de quem? <strong>Revista BITS<\/strong>, vol. 1, n. 7, S\u00e3o Paulo, mai., 1984, p. 6.<\/p>\n<p id=\"FREIRE1987\">FREIRE, P. <strong>Pedagogia do Oprimido<\/strong>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.<\/p>\n<p id=\"GODEL1931\">G\u00d6DEL, K. \u00dcber formal unentscheidbare s\u00e4tze der Principia Mathematica und verwandter systeme. I, <strong>Monatsch. Math. Phys<\/strong>. v. 38 p.173-178. 1931. <a href=\"http:\/\/www.research.ibm.com\/people\/h\/hirzel\/papers\/canon00-goedel.pdf\">Tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas<\/a>.<\/p>\n<p id=\"HENAFF1995\">H\u00c9NAFF, M. Sade, the Mechanization of the Libertine Body, and the Crisis of Reason. Em Feenberg, A. and A. Hannay. <strong>Technology and the politics of knowledge<\/strong>. Bloomington, Indiana University Press, 1995.<\/p>\n<p id=\"KNORR-CETINA1981\">KNORR-CETINA, K. <strong>The manufacture of knowledge<\/strong>: an essay on the constructivist and contextual nature of science. Oxford; New York: Pergamon Press, 1981. xiv, 189 p. ISBN 0080257771.<\/p>\n<p id=\"KRENAK2019\">KRENAK, A. <strong>Ideias para adiar o fim do mundo<\/strong>. S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 2019.<\/p>\n<p id=\"LATOUR1979\">LATOUR, Bruno; WOOLGAR, S. <strong>Laboratory life<\/strong>: the social construction of scientific facts.  Beverly Hills: Sage Publications, 1979. 272 p. ISBN 0803909934 0803909942 (pbk.).<\/p>\n<p id=\"LATOUR1986\">LATOUR, Bruno. <strong>Laboratory life<\/strong>: the construction of scientific facts.  Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1986. 294 p. ISBN 069102832X<\/p>\n<p id=\"LATOUR2016\">LATOUR, Bruno. <strong>Cogitamus<\/strong>: seis cartas sobre as humanidades cient\u00edficas. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2016.<\/p>\n<p id=\"LATOUR1979\">LATOUR, Bruno. <strong>A vida de laborat\u00f3rio<\/strong>: a produ\u00e7\u00e3o dos fatos cient\u00edficos. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 1979\/1997. 310 ISBN 857316123X.<\/p>\n<p id=\"LYNCH1985\">LYNCH, M. <strong>Art and artifact in laboratory science<\/strong>: a study of shop work and shop talk in a research laboratory.  London ; Boston: Routledge &#038; Kegan Paul, 1985. xvi, 317 p. ISBN 0710097530.<\/p>\n<p id=\"MARQUES1999\">MARQUES, I. C. <a href=\"http:\/\/www.redesist.ie.ufrj.br\/images\/redesist_images\/livros\/IGEC\/Cap_8.pdf\">Desmaterializa\u00e7\u00e3o e Trabalho<\/a>. In: <strong>Informa\u00e7\u00e3o e Globaliza\u00e7\u00e3o na Era do Conhecimento<\/strong>. LASTRES, H. M. M., SARITA, A. (Org.). Rio de Janeiro, RJ: CAMPUS, 1999. 136p.<\/p>\n<p id=\"MARQUES2014\">MARQUES, I. C.  <a href=\"http:\/\/www.hcte.ufrj.br\/downloads\/sh\/sh7\/SH\/trabalhos orais completos\/OS-CIENTISTAS-TEM-CONHECIMENTOS-OS-OUTROS-TEM-CRENCAS.pdf\">Os cientistas t\u00eam conhecimentos; os outros t\u00eam cren\u00e7as. Como se escapa deste grilh\u00e3o epistemol\u00f3gico?<\/a> <strong>Scientiarum Historia VII<\/strong>. 2014. <\/p>\n<p id=\"MARX2005\">MARX, K., ENGELS, F. <strong>O Manifesto Comunista<\/strong>. Boitempo Editorial, S\u00e3o Paulo, 2005.<\/p>\n<p id=\"PRIMO2017\">PRIMO, Rodrigo Sampaio. <a href=\"https:\/\/www.cos.ufrj.br\/index.php\/pt-BR\/publicacoes-pesquisa\/details\/15\/2806\">O discurso do global nas comunidades de software livre: estudo de caso do WordPress<\/a>. 2017, M.Sc. \u2013 PESC\/COPPE, UFRJ.<\/p>\n<p id=\"ROGERS1967\">ROGERS, H. <strong>Theory of recursive functions and effective computability<\/strong>. New York: McGraw-Hill. xix, 482 p. p. (McGraw-Hill series in higher mathematics) 1967<\/p>\n<p id=\"ROSS2010\">ROSS, J., Irani, I., Silberman, M. Six, Zaldivar, A., and Tomlinson, B. (2010). Who are the Crowdworkers?: Shifting Demographics in Amazon Mechanical Turk. In: CHI EA 2010 Extended Abstracts on Human Factors in Computing Systems. (2863-2872).<\/p>\n<p id=\"SEVERO2016\">SEVERO, F. <a href=\"https:\/\/www.cos.ufrj.br\/uploadfile\/publicacao\/2634.pdf\">TICS e TACS: refazimento de softwares e engenheiros no limiar entre as Ci\u00eancias e os Segredos<\/a>. Disserta\u00e7\u00e3o de Mestrado COPPE- UFRJ, 2016.<\/p>\n<p id=\"SOARE1996\">SOARE, R. Computability and Recursion, <strong>Bulletin of Symbolic Logic<\/strong> 2 284\u2014321,  1996.<\/p>\n<p id=\"STENGERS2018\">STENGERS, I. Another science is possible. <strong>A Manifesto for slow science<\/strong>. Polity Books, Medford, USA. 2018.<\/p>\n<p id=\"TEIXEIRA2009\">TEIXEIRA, C., CUKIERMAN, H. L. Modernidade, universalismo e assimetrias. In: <strong>Historia de la Inform\u00e1tica en Latinoam\u00e9rica y el Caribe<\/strong>: Investigaciones y testimonios. ed. Rio Cuarto: Universidad Nacional de Rio Cuarto, 2009.<\/p>\n<p id=\"TRAWEEK1988\">TRAWEEK, S. <strong>Beamtimes and lifetimes<\/strong>: the world of high energy physicists.  Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1988. xv, 187 p. ISBN 0674063473 (alk. Paper).<\/p>\n<p id=\"TURING1950\">TURING, A. Computing machinery and intelligence. <strong>Mind<\/strong>, 59, 433-460, 1950.<\/p>\n<p id=\"TURING1936\">TURING, A. <a href=\"https:\/\/londmathsoc.onlinelibrary.wiley.com\/doi\/abs\/10.1112\/plms\/s2-42.1.230\">On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem<\/a>. <strong>Proceedings of the London Mathematical Society<\/strong>, Series 2, n.42, 1936, p. 230-265.<\/p>\n<p id=\"TURING1938\">TURING, A. <a href=\"http:\/\/search.proquest.com\/docview\/301792588\">Systems of Logic Based on Ordinals<\/a> (PhD thesis). Princeton University, 1938.<br \/>\n  <\/section>\n<p>  <!-- SE\u00c7\u00c3O AUTORES --><\/p>\n<section id=\"Autoria\">\n<h3>Sobre os autores<\/h3>\n<section id=\"Amaral\" class=\"autor\">\n<section class=\"autor_foto\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6222938653563066\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/severo.jpg\" alt=\"Fernando Gon\u00e7alves Severo\" width=\"150\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2926\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"autor_descricao\">\n        <strong>Fernando Gon\u00e7alves Severo<\/strong><br \/>\n(<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/6222938653563066\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/6222938653563066<\/a>)<br \/>\n<span id=\"textoLattes\">Possui gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia de Telecomunica\u00e7\u00f5es pela Universidade Federal Fluminense (2006), mestrado em Engenharia de Sistemas e Computa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2016) e doutorado em andamento pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia de Sistema e Computa\u00e7\u00e3o da COPPE\/UFRJ (2017), na linha de pesquisa Inform\u00e1tica e Sociedade.<\/span><br \/>\n      <\/section>\n<p><!-- autor descri\u00e7\u00e3o --><br \/>\n    <\/section>\n<p><!-- autor --><\/p>\n<section id=\"Cukierman\" class=\"autor\">\n<section class=\"autor_foto\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5815607228657970\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/cukierman.jpg\" alt=\"Cukierman\" width=\"150\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2928\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"autor_descricao\">\n        <strong>Henrique Luiz Cukierman<\/strong><br \/>\n(<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5815607228657970\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/5815607228657970<\/a>)<br \/>\n<span id=\"textoLattes\">Possui gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia de Sistemas pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (1977), mestrado em Engenharia de Sistemas e Computa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996), doutorado em Engenharia Produ\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001) e doutorado sandu\u00edche junto ao Program In History and Philosophy of Science da Stanford University (2001). Atualmente \u00e9 professor associado da UFRJ, onde atua na gradua\u00e7\u00e3o como professor do curso de Engenharia de Computa\u00e7\u00e3o e Informa\u00e7\u00e3o e nas p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es do Programa de Engenharia de Sistemas e Computa\u00e7\u00e3o da COPPE\/UFRJ e do Programa de Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e das T\u00e9cnicas e Epistemologia. Dedica-se principalmente aos seguintes temas: redes sociot\u00e9cnicas, hist\u00f3rias das ci\u00eancias, hist\u00f3rias da inform\u00e1tica, abordagem sociot\u00e9cnica da Engenharia de Software. Publicou em 2007 o livro &#8220;Yes, n\u00f3s temos Pasteur \u2013 Manguinhos, Oswaldo Cruz e a hist\u00f3ria da ci\u00eancia no Brasil&#8221;, editado pela Relume Dumar\u00e1\/FAPERJ. Foi bolsista da Funda\u00e7\u00e3o Alexander von Humboldt  e selecionado em 2019 pela Comiss\u00e3o Fulbright para ocupar a UT-Fulbright Chair in Brazilian Studies (Austin). Foi Superintendente Acad\u00eamico de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da Pr\u00f3-Reitoria de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa da UFRJ (2015-2016).<\/span><br \/>\n      <\/section>\n<p><!-- autor descri\u00e7\u00e3o --><br \/>\n    <\/section>\n<p><!-- autor --><\/p>\n<section id=\"Cafezeiro\" class=\"autor\">\n<section class=\"autor_foto\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7610075482763248\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Cafezeiro.png\" alt=\"Isabel Cafezeiro\" width=\"150\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2929\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"autor_descricao\">\n        <strong>Isabel Cafezeiro<\/strong><br \/>\n(<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7610075482763248\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/7610075482763248<\/a>)<br \/>\n<span id=\"textoLattes\">Possui gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal Fluminense (1992), mestrado em Inform\u00e1tica pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (1994), doutorado em Inform\u00e1tica pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio de Janeiro (2000) e p\u00f3s-doutorado pelo Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e das T\u00e9cnicas e Epistemologia da UFRJ. \u00c9 professora Titular da Universidade Federal Fluminense, professora colaboradora do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e das T\u00e9cnicas e Epistemologia, da UFRJ. Atua na \u00e1rea de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o, com \u00eanfase em L\u00f3gicas e Sem\u00e2ntica de Programas, focando principalmente nos seguintes temas: linguagens de programa\u00e7\u00e3o e especifica\u00e7\u00e3o formal de sistemas. Atua na \u00e1rea de Sistemas de Informa\u00e7\u00e3o focando principalmente nos seguintes temas: Computa\u00e7\u00e3o e Sociedade e Abordagens Sociot\u00e9cnicas em Sistemas de Informa\u00e7\u00e3o. Atua na \u00e1rea de Estudos Sociais de Ci\u00eancia e Tecnologia, focando principalmente a Hist\u00f3ria da Computabilidade e investiga\u00e7\u00f5es sobre o trabalho acad\u00eamico. Atua em ensino de gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal Fluminense desde 1994 e coordena projetos de extens\u00e3o desde 2005. Participou do processo de concep\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o do curso de Bacharelado em Sistemas de Informa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal Fluminense.<\/span><br \/>\n      <\/section>\n<p><!-- autor descri\u00e7\u00e3o --><br \/>\n    <\/section>\n<p><!-- autor --><\/p>\n<section id=\"IvanMarques\" class=\"autor\">\n<section class=\"autor_foto\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2796368701159521\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/ivan.jpg\" alt=\"Ivan da Costa Marques\" width=\"150\" height=\"200\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2930\" \/><\/a><\/section>\n<section class=\"autor_descricao\">\n        <strong>Ivan da Costa Marques<\/strong><br \/>\n(<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2796368701159521\">http:\/\/lattes.cnpq.br\/2796368701159521<\/a>)<br \/>\n<span id=\"textoLattes\">Ph.D. e M.Sc. em Engenharia Eletr\u00f4nica e Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o (EECS) pela Universidade da California, Berkeley; Engenheiro Eletr\u00f4nico pelo Instituto Tecnol\u00f3gico de Aeron\u00e1utica (ITA) com curso de Administra\u00e7\u00e3o de Empresas da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas. Professor do Departamento de Ci\u00eancia da Computa\u00e7\u00e3o do Instituto de Matem\u00e1tica e do N\u00facleo de Computa\u00e7\u00e3o Eletr\u00f4nica (NCE), e Professor Colaborador dos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o de Engenharia de Sistemas e de Engenharia de Produ\u00e7\u00e3o da COPPE\/UFRJ. Trabalhou tr\u00eas anos como Coordenador da \u00c1rea de Pol\u00edtica Industrial da CAPRE\/Minist\u00e9rio do Planejamento (1977-1979), seis anos como empres\u00e1rio privado (Presidente da Embracomp-EBC de 1980 a 1985), e quatro anos como dirigente de empresa estatal (Presidente da Cobra de 1986 a 1989). Visiting Research Fellow na New School for Social Research, Nova York, de 1990 a 1992. Desde 1992 dedicou-se ao desenvolvimento dos Estudos CTS no Brasil. Presidente da <a href=\"http:\/\/www.esocite.org.br\/\">ESOCITE.BR<\/a> de 2012 a 2018. Pr\u00f3-Reitor de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa da UFRJ (2015-2016). Professor Titular do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias e das T\u00e9cnicas e Epistemologia da UFRJ.<br \/>\n<\/span><br \/>\n      <\/section>\n<p><!-- autor descri\u00e7\u00e3o --><br \/>\n    <\/section>\n<p><!-- autor --><br \/>\n  <\/section>\n<p><!--autoria--><\/p>\n<p>  <!-- SE\u00c7\u00c3O CITAR --><\/p>\n<section id=\"citar\">\n<h3>Como citar este cap\u00edtulo<\/h3>\n<blockquote><p>CAFEZEIRO, Isabel; MARQUES, Ivan da Costa; GON\u00c7ALVES, Fernando; CUKIERMAN, Henrique. Inform\u00e1tica \u00e9 Sociedade. In: SANTOS, Edm\u00e9a O.; SAMPAIO, F\u00e1bio F.; PIMENTEL, Mariano (Org.). <strong>Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o<\/strong>: sociedade e pol\u00edticas. Porto Alegre: Sociedade Brasileira de Computa\u00e7\u00e3o, 2021. (S\u00e9rie Inform\u00e1tica na Educa\u00e7\u00e3o, v.4) Dispon\u00edvel em: https:\/\/ceie.sbc.org.br\/livrodidatico\/informatica-sociedade\n    <\/p><\/blockquote>\n<\/section>\n<p>  <!-- SE\u00c7\u00c3O COMENT\u00c1RIOS --><\/p>\n<section id=\"comentarios\"><\/section>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Isabel Cafezeiro, Ivan da Costa Marques, Fernando Severo, Henrique Cukierman) M\u00e3os que (se) desenhamFonte: M.C. 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